Até o balanço de 2019, 51% da receita eram oriundos das operações no Brasil; dos EUA, Canadá e Espanha, 34%


Castelli, CEO Global: “Esse movimento é importante para os riscos e sustentabilidade do negócio e para o resultado da VC” — Foto: Silvia Costanti/Valor

Uma das metas da maior fabricante de cimento do país, a Votorantim Cimentos, é balancear sua geração de receita entre países de moeda forte – dólar e euro – e nações emergentes. Atualmente, cerca de um terço é gerado nos EUA, Canadá e Espanha, mas o objetivo é ter o percentual ao menos na proporção meio a meio.

Mais um passo foi dado há pouco mais de um mês pela cimenteira do grupo Votorantim, que é a sexta maior fabricante do mundo. Sem envolver o desembolso de um real. Em plena pandemia mundial de covid-19, com uma série de restrições de viagens e aglomeração de pessoas, a VC negociou, durante oito meses, a operação que considera estratégica na atuação 

A operação foi anunciada em dezembro, unindo seus ativos nos dois países com os do fundo de pensão Caisse de dépôt et placement du Québec (CDPQ), criando uma operação robusta, que agrega uma fábrica estado da arte (de 2017), apta a produzir 2 milhões de toneladas por ano, e um sistema de logística de distribuição e entrega de cimento que chega até 

O grupo brasileiro passa a ter 83% da joint venture; a CDPQ, por meio da McInnis Holding, 17%. A combinação de negócios entre St. Marys Cement (Canada), da VC, e McInnis Cement “fortalece nosso posicionamento estratégico” na região, disse em entrevista ao Valor o presidente da Votorantim Cimentos, Marcelo Castelli.

Segundo o executivo, a VC tem de ser olhada como portfólio global; por isso, busca balancear operações em países maduros – mas de moedas fortes – com as de nações emergentes, com moedas voláteis, caso do real. “Esse movimento é importante para os riscos e sustentabilidade do negócio e para o resultado da companhia”, afirma.

Em 2019, a empresa teve receita líquida de R$ 13 bilhões – 51% desse valor saiu da operação no Brasil. Dos EUA e Canadá foram 29%. Da Espanha, 5%. A companhia está presente em 11 países.

Esse pode ser um caminho a ser seguido, mas não o único, observa o executivo. Segundo ele, o modelo de parceria já existe na Argentina, Uruguai e Bolívia, com o espanhol Molinos, em regiões da Espanha e no Marrocos, com uma cimenteira alemã.

“Quando assumi o comando, afirmei que a VC passou muito tempo jogando do meio campo para trás, mas que dali em diante também iríamos jogar do meio de campo para frente. É o que estamos fazendo”, relembra o executivo, que assumiu o cargo no início de fevereiro de 2019.

Sobre a abertura de capital da companhia, que foi abortada em 2013 quando tudo estava pronto, Castelli diz que o plano está mantido. “É um dos pontos, mas não tem nada para este momento”. Para crescer, afirma que não precisa necessariamente de recursos de uma oferta pública de ações (IPO), mas admite que, capitalizada, ou com a atração de parceiros

Ele diz que, financeiramente, a empresa está bem, com alavancagem confortável, apesar da crise pandêmica. O negócio de cimento no Brasil – e também nos EUA – teve um ano, 2020, surpreendentemente bom. No mercado brasileiro, a demanda cresceu 11%, levando as empresas a fazer esforços para atender a procura.

A VC, disse o executivo, fechou o ano com recorde de produção e vendas. Ele não revelou, no entanto, os números, que serão divulgados no balanço de 2020. “Fomos pegos de surpresa com a virada da demanda a partir de maio, em plena pandemia da covid-19. “No pico de alta, atingimos a demanda de 2014”, afirmou. “Tivemos março e abril difíceis, mas depois, como materiais de construção foi considerado essencial, houve um forte aumento nas compras”.

A VC, de janeiro a setembro, vendeu, no Brasil e exterior, 23,5 milhões de toneladas, com destaque para o mercado nacional, EUA e Canadá. O terceiro trimestre foi o mais forte de todos, com 9,7 milhões de toneladas, alta de 15% sobre o mesmo período de 2019. A empresa se beneficiou do aumento de volume assim como da melhoria dos preços.

Para atender à demanda, fez ajustes em suas operações no país, priorizando os clientes tradicionais. No terceiro trimestre, auge da demanda, a VC tomou a decisão de reativar três fornos que estavam parados há vários anos por causa da crise – um em Rio Branco do Sul (PR), outro em Cantagalo (RJ) e um terceiro, previsto para maio, em Laranjeiras (SE). Em maio, prevê concluir a expansão da fábrica Pecém II, próximo a Fortaleza, que vai adicionar 800 mil toneladas de cimento à sua capacidade de produção. Somando os três fornos, serão 1,6 milhão de toneladas.

Assim, afirma Castelli, a empresa está estruturada para atender a demanda deste ano “Não vamos ter o mesmo crescimento de 11%, porque não é sustentável na atual economia do país, mas estaremos trabalhando sobre uma base elevada de consumo”. O setor prevê alta de 1% nas vendas de 2021. A depender de como evoluir a economia brasileira, poderá até atingir 2% de aumento, afirma o executivo.

Fonte: Valor Econômico – Por Ivo Ribeiro