Na zona sul do Rio, alta é de 60%, liderada pela gávea Em SP, avanço é 17%, com Itaim Bibi à frente

Na Zona Sul do Rio, alta é de 60%, liderada pela Gávea. Em SP, avanço é de 17%, com Itaim Bibi à frente. Corretoras temem que novos aumentos da Selic desaqueçam mercado

O mercado imobiliário foi um dos únicos segmentos da economia a apresentar crescimento durante a pandemia, impulsionado por fatores como a busca das famílias por espaços maiores ou mais aderentes às novas necessidades, e um cenário de juros baixos, o que favorece o financiamento.

No segmento de alto padrão, o aumento nas vendas foi ainda maior. Mas com a perspectiva de alta da taxa básica de juros, a Selic, o mercado teme um recuo do que já é considerado um novo boom imobiliário.

Em julho, foram registrados aumentos nas vendas em bairros valorizados das cidades do Rio e de São Paulo em relação ao mesmo mês do ano passado, quando o mercado já estava aquecido com os efeitos da pandemia. — A queda da taxa de juros e mais facilidade no financiamento atraíram a classe média, enquanto para as famílias de maior renda, que preferiam deixar o dinheiro investido, a compra de imóveis se tornou mais atrativa — explica Patricia Judice de Araujo Esteves, sócia da Judice & Araujo, corretora especializada em imóveis de alto padrão.

Em julho deste ano, houve crescimento de 60% nas vendas de imóveis na Zona Sul do Rio em relação ao mesmo mês do ano passado, segundo dados obtidos pela Judice & Araujo, com base nos pagamentos de Imposto de Transmissão de Bens Imóveis (ITBI), cobrado pelas prefeituras.

Foram 721 contratos fechados na região, número que supera até mesmo julho de 2013, com 711 operações, quando a cidade ainda vivia o auge do boom imobiliário. Alta de 204% na Gávea

Em toda a cidade de São Paulo, foram emitidas e pagas 12.914 guias de ITBI em julho deste ano, contra 10.996 em julho de 2020, um aumento de cerca de 17,5%.

Os bairros de alto padrão também se destacaram na capital paulista. De janeiro a julho, foram pagas 103.061 guias de ITBI na cidade, sendo a maioria nas regiões de Itaim Bibi (4.186); Vila Mariana (3.144); Vila Andrade (2.976); Moema (2.724); Jardim Paulista (2.637) e Pinheiros (2.404).

No Rio, o destaque foi para o bairro da Gávea, com alta de 204%, onde o valor médio é de R$ 1,8 milhão. Já em São Conrado e na Lagoa, o crescimento foi de 145% e 124%, respectivamente, com preço médio dos imóveis em R$ 1,9 milhão e R$ 2,5 milhões.

Segundo Patricia, apesar de as vendas já superarem os níveis de 2013, o momento de pandemia e crise econômica fizeram com que, ao contrário do que houve naquele momento, os preços não tenham disparado agora.

— Mas a taxa média de descontos está caindo, os preços estão ficando mais rígidos.

O receio das corretoras de imóveis, no entanto, é que o crescimento do mercado imobiliário esteja com os dias contados, à medida em que um dos principais fatores do aquecimento, a taxa de juros em baixa, começa a subir.

O Banco Central elevou a Selic em um ponto percentual na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), levando a taxa para 5,25% ao ano .

A perspectiva é que haja um novo aumento de um ponto na próxima reunião, e analistas do mercado estimam que a Selic encerre o ano entre 7% e 8%.

Renda fixa mais atraente

Com isso, o mercado imobiliário perde em duas frentes. O financiamento pode se tornar mais caro e, ao mesmo tempo, a renda fixa pode se tornar mais atraente para o investidor conservador, que normalmente tem o mesmo perfil de quem aplica em imóveis.

 — Quem tinha os recursos em renda fixa no início da pandemia se viu diante da necessidade de colocar o dinheiro para trabalhar, e viu o mercado imobiliário como alternativa para proteger o patrimônio em meio a esse cenário de incertezas — diz Claudio Hermolin, presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-RJ).

Segundo ele, a Selic no patamar atual de 7% ainda é bem recebida no mercado de imóveis, considerando que já houve momentos em que a taxa estava em dois dígitos. No entanto, há o receio de que os juros atinjam o patamar de 10% ao ano em breve, o que pode frear o crescimento desse setor.

— Quando a Selic estava em 2% ao ano, o financiamento imobiliário já tinha juros na faixa de 6% a 7,5%, e isso não mudou muito. Mas, agora, os bancos já sinalizaram que vão começar a aumentar as taxas, pois já estão vendo uma alta dos juros de longo prazo — afirma Hermolin.

O Itaú, por exemplo, informou que fará um ajuste na taxa do crédito imobiliário tradicional, que deixará de ser a partir de 6,9% ao ano, mais a taxa referencial (TR), para 7,3% ao ano mais a TR para novas contratações. Contratos vigentes não sofrerão alterações.

Para financiamento imobiliário residencial, o Santander pratica uma taxa de juros que parte de 7,99% a 9,99% ao ano mais TR. As operações possuem ainda custos de taxas administrativas e seguros obrigatórios.

No Bradesco, as taxas partem de 6,9% ao ano, mais a TR, enquanto no BB são a partir de 6,55%.

A Caixa informou que as taxas variam em função do relacionamento do cliente com o banco. Na modalidade mais tradicional, o valor cobrado é entre 7% e 8% ao ano, mais a TR.

O banco destacou ainda que “está em constante busca pelo equilíbrio financeiro de suas operações”, e que os juros se baseiam em “fatores mercadológicos e conjunturais”.

Fonte: O Globo