Recomposição e formação de estoques, defensivos e especulativos, é que puxaram a demanda de aço no país, diz o Aço Brasil

Mello Lopes, do Aço Brasil: “Se a economia não está bombando, para onde está indo todo esse aço? Só pode ser a formação de estoques defensivos e especulativos” — Foto: Leo Pinheiro/Valor

O descompasso entre oferta e demanda ocorrido na cadeia de consumo do aço nos últimos meses, com pressão de demanda, parece ter se normalizado. Em março, as vendas de produtos siderúrgicos laminados pelas siderúrgicas ao mercado interno bateram recorde em mais de sete anos. “Foi o maior volume desde outubro de 2013, ano em que se registrou a maior venda doméstica – 24,3 milhões de toneladas – e que consumo do país bateu em 28 milhões de toneladas”, afirma Marco Polo de Mello Lopes, presidente do Instituto Aço Brasil.

Em março, acrescenta o executivo, as vendas de aços planos foram a maior de sua série histórica, com 1,25 milhão de toneladas, e as de longos, registrou o maior volume desde 2015 – 806 mil. Já o consumo aparente, resultado da soma de material interno e importado, foi também o mais alto desde outubro de 2013, com 2,45 milhões de toneladas, bem acima dos meses de janeiro e fevereiro e 41% superior a março do ano passado. No trimestre, o aumento atingiu 32,8 comparado com um ano atrás.

Projeção indica que vendas internas só vão voltar ao nível de 2013 em 2031 com PIB do país crescendo 2,5% ao ano

Esse cenário, avalia o executivo do Aço Brasil, não é fruto de um crescimento vigoroso, que não se observa, da economia do país. “Decorre da recomposição de estoques por parte de clientes e da formação de estoques defensivos (garantia de material em retomada de demanda) e especulativos por revendas e distribuidores.

De janeiro a março, segundo o levantamento do Aço Brasil, as vendas ao mercado interno de produtos laminados cresceram, 29,3% na média – aços planos (29,7%) e longos (28,8%) na comparação com mesmo trimestre do ano passado. As usinas aumentaram a produção de aço bruto em 4,1% e a de laminados em 10,1%, em março, ante um ano atrás. Trimestralmente, o crescimento foi de 6,2% e 8,3%, respectivamente.

Lopes disse ao Valor que as usinas vêm se ajustando mês a mês, desde julho, para atender a demanda dos clientes dos setores da construção civil, automotivo, linha branca e de máquinas e equipamentos – responsáveis por 82% da demanda -, além de outros mercados, como implementos e máquinas agrícolas e tubos.

“Tivemos em abril de 2020 um forte cancelamento de pedidos que nos obrigou a paralisar altos-fornos, aciarias, laminações. Muitos desses equipamentos não se religa de uma hora para a outra – podem levar vários meses. Ao mesmo tempo, a partir de julho, a economia começou a reativar em grande velocidade”, afirmou.

Ele destaca que a indústria fez várias reuniões entre os dias 2 e 22 de março com representantes da indústria de transformação e da construção civil para definirem previsibilidade de pedidos e de entregas. “Apenas a CBIC [Câmara Brasileira da Indústria da Construção] ainda apontava desabastecimento e pregava choque de oferta via importação, com eliminação de alíquotas de importação”, afirmou Lopes.

Três fenômenos, diz, levaram ao descompasso na oferta e demanda de aço – retomada em “V” da economia do país a partir do segundo semestre; recomposição dos estoques por partes dos clientes; e formação de estoques defensivos e especulativos.

Questionado sobre os aumentos de preços do aço, o dirigente afirmou: “É um fenômeno que aconteceu em todo o mundo por causa do aumento dos preços das matérias-primas e das commodities em geral”. Ele aponta que de março de 2020 a março último, o minério de ferro – principal matéria-prima do aço – subiu 115%. Outros dois insumos da siderurgia, sucata e gusa, tiveram alta de 147% e 93%, respectivamente.

Ao mesmo tempo, diz, não se observa uma expansão do PIB. “Se a economia não está bombando, para onde está indo todo esse aço? Uma hipótese é a formação de estoques defensivos (para garantir material) e especulativos”, diz, informando que em março a importação de aços longos cresceu 67% sobre o volume de fevereiro e 191% sobre março de 2020. Trimestre contra trimestre, alta de 119,5%.

A seu ver, não são incorporadoras de imóveis que estão importando aço da Turquia, pois já recebem material cortado e dobrado das usinas no país, mas sim distribuidores, via portos de Santa Catarina, usufruindo da isenção de pagamento de ICMS do governo local.

Sobre a recomposição de estoques, Lopes diz que, nos clientes da usinas, já caminha para a normalidade. “Nas usinas, está praticamente resolvida”. Avalia que vai naturalmente se ajustar porque não se verifica uma explosão de demanda no país. Ao contrario, há problema de crédito para pequenas e médias empresas e o auxílio emergencial definido pelo governo neste ano está longe do que foi no ano passado.

Além dos mais, destaca, com as restrições a partir de meados de março para refrear a pandemia, muitas atividades foram paralisadas. As montadoras de automóveis, por exemplo, pararam fábricas em vários lugares. “As usinas estão aptas a atender pedidos de todos os clientes, operando com utilização da capacidade maior que antes da pandemia”, diz.

Uma projeção do Aço Brasil, com base em crescimento médio anual de 2,5% do PIB brasileiro a partir de 2022 mostra que as vendas internas voltariam ao patamar de 2013 somente em 2031. “Para a demanda se recuperar é preciso um plano de investimento robusto em infraestrutura, em óleo e gás e crescimento sustentável da economia como um todo”.

Para Lopes, um choque de oferta via importação – “como é pedido por uma minoria” – não tem fundamento, porque não vai baixar o preço na ponta e a valorização do aço ocorre no mundo todo. Uma tonelada de bobina a quente era comprada na China a US$ 887 na semana passada. Segundo a consultoria especializada S&P Global Platts, o produto é internalizado a US$ 1.092 a tonelada no Brasil, ante US$ 1.055 do material nacional. No mercado dos EUA, a mesma bobina é vendida a mais de US$ 1.300.

Fonte: Por Ivo Ribeiro — De São Paulo.