Aprender sozinho e influenciar à distância são habilidades em alta

Izabel Branco, vice-presidente de relações humanas da TOTVS, diz que empresa busca profissionais que atuem de forma colaborativa e antecipem entregas — Foto: Claudio Belli/Valor

Boa comunicação, autonomia e rápida adaptação a novos cenários. Essas são algumas das principais habilidades profissionais que serão exigidas dos executivos em 2021, segundo cinco consultorias de recrutamento ouvidas pelo Valor. “São características que já eram valorizadas, mas ganharam relevância por conta da pandemia, dos desafios da gestão remota ou pela pressão das chefias por melhores resultados”, explica Fernando Mantovani, diretor geral da Robert Half.

A expectativa é que setores como tecnologia, saúde, agronegócio, infraestrutura e logística sigam com os maiores volumes de contratações, com destaque para os currículos ligados à tecnologia, finanças e serviços. Outra tendência apontada pelos especialistas este ano é a de estabilidade nas remunerações na maior parte das posições. “Enquanto não houver um aquecimento mais forte da economia, será difícil observar uma melhoria nas faixas salariais.” Mantovani afirma que o movimento das empresas iniciado em 2020, com a transição para o trabalho remoto, não é mais novidade em 2021 e que os gestores devem colocar em prática os aprendizados obtidos. “Saem com vantagem este ano líderes e organizações que conseguem se reinventar no caos”, diz. “No processo de recuperação da economia, as companhias mais preparadas voltarão a contratar e as chefias devem ficar atentas para não perderem talentos.”

Na Totvs, companhia de tecnologia com mais de 7,6 mil funcionários, a perspectiva é manter o ritmo de contratações de 2020 – foram 1.145 admissões no ano, sendo 2% do total para gerência ou cargos mais altos. Segundo a vice-presidente de relações humanas Izabel Branco, a tendência é que as principais áreas da empresa que vão contratar sejam as mesmas de 2020, como tecnologia, com 56% do total das vagas preenchidas, serviços (19%), corporativo (15%) e comercial (10%). “Teremos maior demanda por posições na base da pirâmide, como analista I e II.”

Nos processos de seleção, Izabel adianta que serão priorizados candidatos que sabem atuar de forma colaborativa e que antecipam entregas. “Será importante identificar oportunidades de forma proativa e agregar valor ao negócio dos clientes”, explica.

Por conta da implantação massiva do home office em 2020, a executiva diz que as relações no ambiente de trabalho mudaram e já experimentam um novo fluxo. “Os profissionais que souberam se adaptar a esse novo estilo terão mais destaque.” Ela lembra que foi necessário, no último ano, desenvolver competências como autonomia para tomadas de decisão e assumir riscos inerentes a projetos, mesmo sem um gestor do lado. “São ações que exigem flexibilidade e iniciativa”, diz.

Na opinião de Lucas Toledo, diretor da consultoria PageGroup, a capacidade de usar a tecnologia para encontrar novas soluções e o trabalho em equipe estarão em alta nas “peneiras”. Pesquisa realizada pela empresa na América Latina aponta que 90% dos gestores da região afirmam que a situação de pandemia aumentou a demanda por “soft skills”, como motivação e inteligência emocional.

“Há uma maior necessidade [entre os candidatos] de mostrar que é possível ‘aprender sozinho’, influenciar equipes a distância e estar preparado para imprevistos.” A divisão de recrutamento do PageGroup, a Page Outsourcing, tem mais de 300 vagas contratadas neste início de período, principalmente para os setores de tecnologia e digital, serviços financeiros, startups e logística. “Esperamos um crescimento de 25% nas contratações este ano, número que pode ser maior dependendo da evolução econômica e das ações de combate à covid-19.” Até lá, Toledo diz que os líderes terão de transmitir confiança para os times em um ambiente de incerteza econômica. “Não podem esperar até que a pandemia passe”, avisa. “A inação desmobiliza o engajamento e pode levar à baixa performance e perda de talentos”, diz.

O consultor destaca que, em 2021, a alta liderança precisará assumir uma posição mais dinâmica na linha de frente das corporações. “Ouvir e atender o cliente sem burocracia, gerar, entre os colaboradores, um senso de ‘pertencimento’ à companhia, e focar na execução rápida de projetos devem estar na agenda”, diz.

Daniel Machado de Campos Neto, CEO da EDC Group, multinacional de consultoria e outsourcing de serviços que atua principalmente com empresas de setores como agronegócio e automotivo, identifica uma nova tendência nos recrutamentos. “As companhias demandam cada vez mais profissionais com conhecimento de critérios ESG [ambientais, sociais e de governança, na sigla em inglês].” Também querem candidatos especializados, com foco no desenvolvimento de produtos, análise de dados e na digitalização dos negócios. A capacidade de liderar projetos com times multiculturais e diversos será mais exigida.

Nestes primeiros três meses de 2021, por conta de contratos de terceirização de mão de obra para multinacionais da indústria de transformação iniciados em 2020 e que serão concluídos até o segundo trimestre, a EDC Group estima realizar cerca de 50 contratações, inclusive de engenheiros seniores – um crescimento de 25% na quantidade de posições, ante o mesmo período do ano passado.

Ricardo Rocha, diretor executivo da Spring Professional, especializada em recrutamento de nível sênior, diz que além da área de TI, citada por todas as consultorias de RH, haverá uma procura maior por profissionais de direito e finanças. A chegada da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o crescente número de startups no mercado vão exigir advogados atualizados em temas contratuais e societários.

No campo das finanças, as seleções devem se concentrar em três nichos, por conta de impactos financeiros decorrentes da crise sanitária, segundo Rocha. Profissionais de tesouraria com experiência em crédito e reestruturação de dívidas, especialistas em M&A [fusões e aquisições, na sigla em inglês] e líderes de relações com investidores (RI) ganham mais espaço até dezembro. Segundo ele, os gestores de RI passarão por um ‘boom’ similar ao período 2008-2011, considerando que, em 2020, o número de ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) só perde para 2007.

Para Rafael Ricarte, líder de produtos de carreira da consultoria Mercer Brasil, independentemente do cargo a ser disputado, o profissional de 2021 terá de mostrar equilíbrio entre autonomia, determinação e disciplina. “Será preciso definir melhor o limite entre vida pessoal e profissional, um obstáculo sempre apresentado pelos executivos sobre a necessidade de trabalhar remotamente”, diz.

Fonte: Valor Econômico – Por Jacílio Saraiva

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