Incertezas relacionadas à inflação podem elevar ainda mais a taxa

Foto: Ruy Baron/Valor

O tom mais duro adotado pelo Banco Central (BC) conseguiu controlar as expectativas de inflação de médio prazo no mercado, que ficaram estáveis por duas semanas após a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). No entanto, crescem apostas de juros m níveis ainda mais altos e que já flertam com patamares acima do neutro, ou seja, não estimuativos.

Entre instituições que integram o grupo dos Top 5 que mais acertam as projeções de curto prazo, há quem calcule que a Selic pode subir acima de 8% em 2022. A maioria, porém, acredita em um ciclo que termine neste ano e leve a taxa a um patamar entre 7% e 7,5%.

É o caso da Macro Capital, que trabalha com Selic em 7% no fim do ano — nível que seria alcançado após duas altas de um ponto percentual em agosto e em setembro, uma de 0,50 ponto em outubro e uma última de 0,25 ponto em dezembro. “Uma alta de um ponto pressupõe um quadro de inflação mais negativo e, consequentemente, probabilidade alta de o BC elevar para um nível superior a 6,5%”, afirma Nilson Teixeira, sócio da gestora.

O economista, contudo, dá ênfase às incertezas elevadas que permanecem no cenário, especialmente relacionadas às expectativas de inflação. Teixeira lembra que, em agosto de 2020, as projeções do mercado apontavam um cenário de inflação bem distante daquele que se materializou. “Por mais esforço que se coloque na dinâmica das projeções, é muito difícil prever qual vai ser a inflação neste ano e no próximo. Estamos em um momento atípico, onde sazonalidade não funciona tão bem e há efeitos de base relevantes.”

Ao avaliar a comunicação recente adotada pela autoridade monetária, o economista nota que três fatores se sobressaíram e devem determinar as futuras decisões: o comportamento da inflação corrente e sua composição; as expectativas de curto prazo dos participantes de mercado; e, finalmente, as projeções de mais longo prazo, especialmente as de 2022. “Claro que atividade econômica e dinâmica da pandemia são relevantes, mas os outros fatores devem ter mais peso.”

Com uma projeção de inflação de 4,1% em 2022, bem acima do centro da meta, a BRDR Asset também está no time dos que acreditam em uma elevação de um ponto do juro básico em agosto, com taxa de 7,25% no fim do ano. Antes da reunião do Copom, a gestora acreditava que a taxa básica encerraria o ano em 6,5%, mas essa aposta mudou após a divulgação da ata do encontro, em que o colegiado expôs a discussão de uma aceleração no ritmo de alta já em junho.

“Já tínhamos viés de alta para a Selic, já que os choques de oferta têm se mantido de forma persistente e a pressão sobre os bens também. Entendemos que a decisão mais assertiva do BC foi positiva e revisamos nosso cenário a partir dela”, diz Carlos Cardoso, gestor da BRDR. Embora projete a Selic em 7,25%, ele afirma que se trata de um nível “só um pouco contracionista”.

A gestora estima uma expansão do PIB de cerca de 2,5% em 2022, mas Cardoso ressalta que os estímulos monetários possuem efeitos temporários e menos relevantes para esse desempenho. “Uma taxa nesse nível que projetamos é neutra para o crescimento”, observa o profissional.

A taxa de juros em um patamar “levemente contracionista” também está no cenário básico da Novus Capital, que defende uma aceleração do ritmo de elevação da Selic para um ponto nas reuniões de agosto a setembro, alta de 0,50 ponto em outubro e aumento final de 0,25 ponto em dezembro. “A estratégia ótima do BC é fazer o máximo no tempo mais rápido possível para ter que fazer menos no total. É o que ele tem comunicado e muito bem”, aponta Tomás Goulart, economista-chefe da casa.

A Novus, no momento, lidera o Top 5 de curto prazo do Boletim Focus nas projeções para o juro básico. Para a gestora, o ambiente é de alta para os juros no mundo, “seja pela recuperação da economia, seja por uma reação ao repique da inflação”. Goulart, assim, defende um nível um pouco contracionista, que seria consequência de alguns fatores até mesmo positivos, como “a surpreendente retomada da atividade aqui e também no exterior, o qu puxou os preços das matérias primas”

Para o economista, novas revisões da para cima Selic dependem da atividade econômica e do cenário externo em relação aos riscos de inflação em economias desenvolvidas. Goulart destaca que o IPCA de 2022 deve ficar sob pressão da inflação de serviços, que já deve ser sentida no quarto trimestre deste ano.

Ao ver riscos de uma inflação de serviços mais “puxada”, o economista-chefe da Quantitas, Ivo Chermont, espera que a Selic termine o ano em 7,25% e vê mais dois aumentos de 0,50 ponto na taxa em 2022, o que levaria o juro básico a 8,25% no fim do atual ciclo. “Quando se tem uma inflação que já está em 4% em 2022 no nosso cenário e quase todos os riscos estão para cima, a Selic no campo contracionista é justificada”, afirma.

Para Chermont, quase todos os riscos empurram a inflação para cima e, com a perspectiva de um crescimento econômico forte também no próximo ano, “o risco é de que haja mais inflação, e não menos”. No cenário da Quantitas, o PIB do Brasil crescerá 5,7% neste ano e 2,8% em 2022.

“Ainda temos uma série de estímulos que estão sendo dados, há o processo de reabertura da economia e tudo isso indica que o BC terá de elevar a Selic a níveis mais altos”, diz Chermont, que cita os níveis elevados de poupança acumulada durante a pandemia. “Se tivermos um impulso de demanda reprimida associado ao nível alto de poupança, veremos uma aceleração dos preços de serviços.”

Em levantamento da BGC Liquidez com 16 países emergentes, o Brasil tem a segunda menor taxa de juro real ex-post, que está negativa em 4,56% e fica à frente somente da Polônia, onde o juro real está em -4,60%. Chile (-3,15%), Malásia (-2,95%) e Índia (-2,30%) completam a lista dos cinco primeiros.

Para Ermínio Lucci, diretor executivo da BGC, a velocidade rápida de reabertura, a mescla de poupança acumulada durante a pandemia com problemas nas cadeias de suprimento e o aumento nos preços das commodities fizeram com que a inflação global acelerasse e acertasse em cheio, principalmente, os emergentes.

Segundo Lucci, o BC percebeu que pode ter deixado a inflação “correr demais” e, por isso, já adotou uma linguagem mais dura na reunião de junho. A BGC trabalha com a Selic em 7,5% neste ano.

Fonte: Por Victor Rezende e Felipe Saturnino.