A colunista Betania Tanure escreve sobre a necessidade de executivos analisarem a si mesmos sem abrandar ou justificar os problemas existentes

Betania Tanure

Pesquisas mostram que 10% dos executivos das maiores empresas do Brasil têm sua competência avaliada como baixa tanto nas ações mais objetivas (hard) como em liderança, gestão de pessoas e cultura (soft) — Foto: Pixabay
Pesquisas mostram que 10% dos executivos das maiores empresas do Brasil têm sua competência avaliada como baixa tanto nas ações mais objetivas (hard) como em liderança, gestão de pessoas e cultura (soft) — Foto: Pixabay

Por que as empresas, ou melhor, as pessoas, teimam em dizer que são meritocráticas e vemos tanta gente com baixa performance? Essa é uma pergunta que precisa ser respondida de forma clara e direta, sem rodeios.

Nossas pesquisas mostram que 10% dos executivos das maiores empresas do Brasil têm sua competência avaliada como baixa tanto nas ações mais objetivas (hard) como em liderança, gestão de pessoas e cultura (soft), que geram energia produtiva e criam a ambiência adequada para que os resultados sejam superiores. Esse percentual, preocupante, refere-se apenas a pessoas com desempenho muito baixo. Se somarmos executivos com subdesempenho satisfatório, que abarcaria competências em escala maior, o número se torna assustador: 83%. Difícil de encarar, não é?

Bem, diante do saldo de 7% que, segundo nossas pesquisas, corresponde ao seleto grupo de alta performance e potencial, talvez você se lembre de avaliações formais que já conheceu, usadas na “vida real”. Na maioria delas, a proporção dos que ocupam o quadrante superior ultrapassa muito os 7%. E por que será que esses resultados não são validados na pesquisa anônima? Vale ressaltar que no segundo caso a pesquisa é desvinculada de reconhecimento, bônus, progressão de carreira.

Ainda sobre esse seleto grupo, supõe-se que todos os que leem esta coluna pertencem a ele. Se você concorda, veja que não sobra ninguém que possa integrar os outros dois grupos. Onde será que se escondem esses 93%? Agora vamos pensar no papel da meritocracia nesses números.

São muitas as empresas que declaram seu desejo de ser meritocráticas, mas esse número se reduz bastante quando mapeamos aquelas que de fato lutam para atingir esse objetivo.

A primeira ação é: olhe-se no espelho e se reconheça. Em qual ponto da régua você já esteve, em qual está neste momento e onde deseja estar no futuro? Enfrente os “brutal facts”! Olhe o seu desempenho e a sua cultura sem a lente “rosa” que faz você abrandar ou justificar os problemas existentes.

Cabe discutir aqui um ponto, na verdade um contraponto ao ambiente difícil que vivemos hoje, em razão da pandemia, e aos riscos que corremos. A exaustão emocional quase generalizada pode fazer as empresas “baixarem a régua” equivocadamente. Note que acolher e não gerar ansiedade e estresse adicionais não significa ser complacente ou abaixar a régua. Pode-se ter na linha de frente uma falsa harmonia, que não é produtiva. Seria como tratar uma infecção de alto grau com analgésicos. A febre poderia baixar, mas a doença permaneceria intocada ou até se agravaria. No ser humano, deve-se conhecer bem a doença, e as condições do paciente, para tratá-la de modo eficaz.

Na empresa, isso significa conhecer as causas reais do baixo desempenho e focar nelas o tratamento. Muitas vezes só se atinge a “cura” com alguns sacrifícios, como a mudança de hábitos nocivos, a “cirurgia”, a “extração de um órgão” não recuperável ou mesmo a combinação de um tratamento menos invasivo com um mais radical. Os bons tratamentos exigem disciplina, renúncia e a aprendizagem de novos hábitos. Observe-se, identifique seus hábitos não desejáveis, as causas disso e não perca tempo. É fundamental não fugir de conversas difíceis.

E por que fugimos? Algumas das causas podemos eventualmente identificar em nós mesmos. Uma das mais importantes: temos medo de perder o outro, o afeto e a aceitação do outro (é isso mesmo!). Porque tememos ser confrontados, perder a discussão e, pior, a “harmonia”, o que é especialmente forte em culturas como a brasileira, em que facilmente se mescla o lado pessoal com o profissional. Isso contribui para diminuir a régua, reduzir o potencial de desempenho e tornar pessoas e organizações mais medíocres.

Acorde! Disponha-se a ter conversas difíceis, primeiro com você mesmo, e se empenhe em subir a régua (a sua primeiro). Identifique se a sua organização desafia você, se lhe faz crescer. Você vai perceber, tenho certeza, que, se quiser, pode ir além, muito além.