As marcas de luxo estão se adaptando aos novos hábitos do consumidor, atentas à retomada da economia

Depois do impacto brutal da pandemia em suas receitas, as marcas de luxo estão se adaptando aos novos hábitos do consumidor, atentas à retomada da economia. O isolamento social prolongado provocou mudanças na decisão de compra das pessoas, o que está levando as grifes a reconsiderarem estratégias comerciais consagradas, como os extensos calendários de desfiles de moda.

“As marcas de luxo estão reagindo de maneira criativa e saindo de sua zona de conforto, com investimento em ‘gaming’ e outras experiências on-line”, disse a jornalista Paula Merlo, diretora de conteúdo da revista “Vogue Brasil”, na Live do Valor, hoje, sob o tema “Os efeitos da pandemia no mercado de luxo e no estilo pessoal”. Participou, também, o diretor da revista “GQ Brasil”, Daniel Bergamasco.

O receio de novas pandemias está na base de uma das tendências mais claras, disse a jornalista: a preferência por peças clássicas, duradouras e menos sujeitas às variações sazonais da moda. “Nunca se comprou tanta joia e relógio como agora. São produtos que não perdem valor se houver outra pandemia. Ao contrário, ficam mais valiosas”. Bolsas de estilo clássico também estão entre os produtos com maior saída.

Muitas marcas transformaram os desfiles de alta-costura, anteriormente restritos, em grandes eventos produzidos por cineastas e diretores de arte, com transmissão via internet. “A visão de luxo tem se atualizado. Hoje, quando se fala em algo exclusivo, a palavra parece muito mais conectada a algo único que a algo excludente”, disse Bergamasco. “Os desfiles de moda são exemplos disso. Agora, é importante que eles virem tema de conversa.”

Com as pessoas trabalhando e estudando em casa, conforto tornou-se palavra essencial. As vendas de sapatos de salto alto, por exemplo, despencaram, disse Paula. “Sabe aquele sapato de salto 15, em que a pessoa não consegue sentir o dedo do pé? Isso acabou. Nunca mais.” Em contrapartida, as vendas de sandálias e chinelos explodiram.

A moda pós-covid, porém, não seguirá apenas numa direção. Nos desfiles internacionais mais recentes, as passarelas têm mostrado tanto roupas despojadas como produções exuberantes, com cores e brilho. Essa abordagem é reflexo do desejo do consumidor de voltar a sair de casa e se mostrar, assim que for seguro. Mesmo na moda masculina, os designers têm apresentado peças com pedrarias e joias, afirmou Bergamasco.

A perspectiva é que os homens sejam parte cada vez mais relevantes no mercado de luxo. Nos últimos anos, marcas como Chanel, Marc Jacobs e Tom Ford têm investido em maquiagem masculina, disse o diretor da “GQ”. Outros itens que pareciam proibidos começam a ganhar espaço. É o caso das peças “cropped”, que expõem a barriga. A inspiração vem das gerações mais jovens, que adotam esse visual nas ruas.

A covid não mexeu só com as passarelas. Consultórios médicos estão sendo cada vez mais procurados por pessoas interessadas em fazer cirurgias plásticas para corrigir imperfeições que nunca tinham percebido antes ou fazer procedimentos estéticos como harmonização facial. Em parte, esse interesse é visto como consequência da explosão do número de lives e videoconferências. “Com essa história de passar o dia inteiro na frente da câmera, nunca nos encaramos tanto”, disse Paula.