Com a pandemia no auge, um grupo de empresários se une para construir uma agenda transformadora para o país

Poucas situações ilustram de maneira tão chocante o desafio do Estado brasileiro ao lidar com a pandemia de covid-19 como a falta de oxigênio nos hospitais. Como decorrência do avanço da cepa descoberta em Manaus, mais infecciosa e letal do que as demais, o número de casos graves da doença vem crescendo em todas as regiões brasileiras desde o começo do ano.

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Aliada a um ritmo de vacinação lento demais para a urgência do momento — pouco mais de 10% da população brasileira recebeu uma dose —, a pandemia provocou o colapso da assistência de saúde no país. O caos nos hospitais ficou evidente em 22 de março, data em que a ­Ambev, maior cervejaria do país, anunciou a construção de uma usina de produção de oxigênio para tentar, de alguma forma, garantir aos pacientes graves da ­doença o direito básico de seguir respirando.

A Ambev não está sozinha na empreitada. Ao lado dela, dezenas de negócios doaram tempo, pessoal e recursos para fazer o gás chegar às salas de terapia intensiva. A coordenação de parte dessa logística foi uma das tarefas das últimas semanas de Pedro Zahran Turqueto, vice-presidente e integrante da família fundadora da Copagaz, uma das principais fabricantes no país do gás de cozinha, um item que, assim como alimentos e bebidas, demanda uma distribuição bem azeitada, com milhares de caminhões país afora para chegar aos consumidores.

“Nos responsabilizamos pelo fluxo do oxigênio até a ponta”, diz Zahran Turqueto. Desde o ano passado, a Copagaz já desembolsou 3 milhões de reais no combate à pandemia. Boa parte dos recursos foi em máscaras e outros equipamentos de proteção para profissionais de saúde de Mato Grosso do Sul, onde os negócios da companhia começaram, em 1955. “Está no DNA da empresa contribuir com a sociedade”, diz.

As medidas de empresas como a Ambev e a Copagaz são parte de uma reação do empresariado brasileiro na busca de soluções rápidas no combate à pandemia. Em parte, é uma reedição de um esforço de solidariedade visto no ano passado, quando a pandemia ainda era uma novidade. De março a maio do ano passado, as empresas brasileiras doaram perto de 5 bilhões de reais, segundo a ABCR, associação dedicada à captação de recursos para o terceiro setor.

Com uma média mensal perto de 2 bilhões de reais, a solidariedade contra a pandemia atingiu níveis recordes no país. Para ter uma ideia, esse volume beira tudo o que é doado ao terceiro setor no Brasil num ano inteiro. Mas, do início de 2020 para cá, o volume de recursos foi caindo mês a mês, até beirar poucas dezenas de milhões de reais em dezembro à medida que o número de casos ia caindo e a injeção de recursos públicos, via auxílio emergencial do governo federal, ia amenizando de alguma maneira o drama vivido pelos brasileiros.

Leito de UTI durante a pandemia: 74% dos recursos doados pelo empresariado no Brasil equipou hospitais (Michael Dantas/Getty Images)

O horror causado pelo colapso hospitalar decorrente do avanço da nova cepa, no entanto, vem provocando uma segunda onda de solidariedade privada — e com ambições de, desta vez, deixar uma marca mais duradoura. Em março, os desembolsos com a pandemia superaram os 100 milhões de reais pela primeira vez desde outubro do ano passado, diz a ABCR.

Apesar de a pandemia ser a mesma, muito mudou de março do ano passado para agora. Se antes as companhias tinham capital e disposição para organizar grandes doações, hoje elas estão com as contas mais apertadas e procuram ser mais assertivas. “As empresas estão descapitalizadas e com uma fadiga maior. Vejo que os empresários estão preocupados em cuidar das pessoas que trabalham com eles”, diz Daniel Castanho, presidente do conselho da Anima Educação. Castanho, em 2020, foi um dos organizadores do movimento ­#nãodemita, que tentava garantir estabilidade de empregos nos dois primeiros meses de crise.

Em meio às dificuldades, por trás do espírito renovado de doações empresariais neste momento da pandemia está a percepção de que a iniciativa privada tem uma responsabilidade crescente com a sociedade brasileira. “Estamos nos comprometendo, mais uma vez, por entender que a demanda não mudou, mas cresceu”, diz Lorival Luz, presidente do gigante global de alimentos BRF, que anunciou recentemente o desembolso de mais 50 milhões de reais contra a pandemia — a empresa já havia investido quantia semelhante no ano passado.

Os recursos vão para equipar hospitais em 15 estados, além de apoiar iniciativas de combate à fome no país. Para Luz, a legitimidade das ações empresariais é o que vai permear a atuação social neste novo ano de pandemia, bem como no futuro. “Se algo é feito em benefício público, será perene”, diz. A JBS, outro gigante da cadeia de alimentos, conta mais de 400 milhões de reais alocados contra a pandemia desde o ano passado — quase 90% disso na construção e reforma de hospitais, compra de equipamentos médicos e incentivos a mais de 30 pesquisas científicas. “Entendemos que uma empresa não será próspera se o entorno não for beneficiado”, diz Gilberto Tomazoni, presidente da JBS.

Mas o que os brasileiros esperam dos empresários na pandemia? Seis em dez brasileiros são favoráveis à participação privada nos esforços contra a crise sanitária, segundo a pesquisa mais recente EXAME/IDEIA, projeto que une EXAME Invest Pro, braço de análise de investimentos da EXAME, e o IDEIA, instituto de pesquisa especializado em opinião pública.

Quando perguntados sobre o melhor jeito de o setor privado ajudar, 40% acreditam que as companhias deveriam doar equipamentos a hospitais; 21% apontam a doação de alimentos e itens de primeira necessidade para os mais pobres. “Esses números nos mostram que, apesar de o brasileiro parecer anestesiado diante da pandemia, as cenas de hospitais lotados têm sensibilizado a opinião pública e o que ela espera por parte do setor privado na atual na crise”, diz Maurício Moura, fundador do IDEIA.

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(Arte/Exame)

Nas últimas semanas, a face mais visível da reação do empresariado diante da covid-19 tem sido a discussão da vacinação privada. No início de março, o governo federal sancionou uma legislação permitindo às empresas comprar as vacinas contra a covid-19, desde que todas as doses sejam doadas ao Sistema Único de Saúde até o fim da vacinação de grupos prioritários — o que hoje envolve 77 milhões de pessoas, ou 36% da população. Só então o setor privado poderia adquirir doses para vacinar seus funcionários. Não é o ideal para empresários como Carlos Wizard, do grupo Sforza, de alimentos, e Luciano Hang, da varejista Havan, que lideram um movimento para mudar a lógica.

O grupo quer uma legislação permitindo que empresários vacinem funcionários imediatamente e, assim, abram as portas dos comércios. “Não temos faturamento, mas continuamos a ter despesas, como aluguel e fornecedores, e muitos já foram à falência”, diz Wizard. Uma flexibilização da atual­ regra já passou pela Câmara dos Deputados. O assunto é polêmico e tem tudo para distanciar a população do empresariado. A vacinação privada abriria espaço para pessoas com menos risco de morrer serem vacinadas antes dos grupos prioritários pelo Ministério da Saúde.

Diante da escassez de vacinas, boa parte das farmacêuticas já avisou que só negocia com governos para evitar uma competição dentro dos próprios países. Portanto, ainda que o Congresso permita a aquisição particular, fica a dúvida: de quem o setor privado vai comprar os imunizantes? A pergunta aponta para o risco de doses falsificadas, como ocorreu no episódio da falsa enfermeira de Belo Horizonte, em uma vacinação clandestina contra a covid-19 a familiares e amigos de empresários, no mês passado. Não à toa, a percepção dos brasileiros é de que a vacinação deveria ficar nas mãos do governo. Apenas 15% apoiam a compra de vacinas pelo setor privado, mesmo que elas sejam doadas ao SUS para imunizar a população em geral, segundo a pesquisa EXAME/IDEIA. Outros 23% consideram válida a compra de vacinas para imunizar funcionários e seus parentes.

Ao que tudo indica, a participação mais ativa das empresas nas comunidades em que ­atuam será cada vez mais cobrada. Nos rincões do Brasil, é na porta das grandes companhias que os pedidos de todo tipo de ajuda vão parar. É até compreensível: em lugares onde o Estado é mais ausente, sobra para a iniciativa privada as demandas de um novo posto de saúde ou de uma nova escola — que, obviamente, não consegue atender aos anseios de todo mundo. “As empresas brasileiras se sentem mais confortáveis nesse papel de promover ajudas pontuais”, diz a consultora em gestão Betania Tanure, presidente da consultoria BTA. “Poucas são as que se envolvem na formulação de políticas públicas, papel que costumo chamar de ‘empresas estadistas’.”

(Germano Lüders/Claudio Belli/Ânima/Bitenka/Hélvio Romero/Estadão/Divulgação)

Já que a pandemia obrigou as empresas a rever quase tudo o que faziam, a hora de se envolver mais em políticas públicas parece ter chegado. O motivo: o pessimismo generalizado com um país sem condições de encerrar a crise sanitária. De acordo com uma pesquisa da BTA, com 428 empresários num universo entre as 500 maiores companhias do país, 82% estão pessimistas em relação ao cenário político; e 58%, em relação à economia.

O nível de desemprego alto, a educação e a desigualdade social, que foram amplamente afetados na pandemia, também estão por trás do baixo-astral. “Grande parte do empresariado compreende que é impossível continuar do jeito que a gente está”, diz Maurizio Billi, presidente da farmacêutica Eurofarma.

“A distribuição de riqueza é muito cruel.” No ano passado, a Eurofarma investiu 29 milhões de reais na aquisição de produtos como álcool em gel e medicamentos para hospitais. O foco, agora, é em programas para garantir renda a quem ficou desempregado na pandemia. Para esse fim, já foram empregados 10 milhões de reais.

Um dos debates mais antigos do capitalismo é, afinal, para que serve uma empresa. Para dar retorno a seus acionistas, por certo. Mas também para subir a barra do debate público em pautas sociais, ambientais e de governança. E não há oportunidade melhor para iniciar uma agenda transformadora, tendo as empresas como protagonistas, do que agora, na visão de um grupo crescente de empresários.

Na rede de farmácias RaiaDrogasil, mais de 30 milhões de reais foram destinados, desde o ano passado, à reforma de hospitais e a treinamentos para gestores de saúde das prefeituras. “Nossa filosofia é deixar legado”, diz Marcílio D’Amico Pousada, presidente da RaiaDrogasil.

Um exemplo desse papel mais ativo é a empresária Luiza Trajano, presidente do conselho do Magazine Luiza. Luiza tem reunido empresários no Unidos pela Vacina, um esforço para melhorar a gestão do SUS a partir da vacinação. Um projeto piloto está ocorrendo em Nova Lima, nos arredores de Belo Horizonte. Por ali, o empresariado local está empenhado em engajar a população sobre os benefícios da vacinação. A prefeitura local está recebendo assessoria em frentes como checagem de fornecedores para aquisição de imunizantes — um conhecimento que a cidade espera utilizar para outras vacinações no futuro. “O SUS tem a melhor inteligência em vacinas no mundo”, diz Luiza. “Precisamos ajudar na gestão.” (Leia entrevista na pág. 32.)

Fábrica de vacinas do Butantan, em São Paulo: financiamento com 187,8 milhões de reais captados com 41 empresas (Divulgação/Exame)

Em alguns casos, as empresas estão somando esforços para ampliar o impacto da agenda transformadora no pós-covid. Em março, o banco BTG (do mesmo grupo que controla a EXAME), se uniu à siderúrgica Gerdau, à fabricante de papel e celulose Suzano e ao fundo Península para a criação de 40 novos leitos de unidades de terapia intensiva (UTI) em São Paulo. Em outra frente, o banco custeou a contratação de 386 profissionais para o SUS na capital paulista numa parceria com o gigante sucroalcooleiro Cosan, a farmacêutica Eurofarma e geradora de energia EDP.

E, junto com o empreendedor social Edu Lyra, da ONG Gerando Falcões, colocou 3 milhões de reais em microcrédito para ajudar na recuperação da economia de regiões carentes das grandes cidades nos próximos anos. “A gente tem de construir uma agenda social não só quando há fome, precisa ter uma agenda de longo prazo”, diz Lyra. “As empresas brasileiras estão acordando para isso.”

O saldo dessas ações é uma mobilização empresarial cada vez mais preocupada com o longo prazo. “Neste segundo ano da pandemia, o papel da iniciativa privada deve ser o de indutora de políticas públicas de longo prazo, mais do que apenas doa­dora de recursos financeiros”, diz a empreendedora social Regina Esteves, presidente da Comunitas, organização social de São Paulo responsável por uma das principais mobilizações de recursos no combate à pandemia no ano passado.

Desde março de 2020, a Comunitas levantou cerca de 50 milhões de reais de doadores privados para equipar hospitais e financiar programas de transferência de renda. No ano passado, a mobilização empresarial ao redor da organização pressionou o governo paulista a criar programas de transferência de renda a alunos de escolas públicas em situação de vulnerabilidade sob o risco de ficar sem comida com as escolas fechadas. Cerca de 113.000 crianças foram beneficiadas.

Nos últimos meses, a Comunitas arrecadou 187,8 milhões de reais com 41 grandes empresas, como Amazon, JBS, iFood, Renner e BRF para construir a nova fábrica de vacinas do Instituto Butantan, em São Paulo, o que deve ampliar a capacidade anual de produção de vacinas por ali para 100 milhões de doses a partir de 2022. “Não é só doar recursos, e sim disseminar uma agenda transformadora nos governos”, diz.

(Arte/Exame)

A visão de longo prazo une o social ao financeiro — e pode ajudar a tirar o país da anemia econômica da última década. “Ao fugir do debate sobre esses problemas estruturais, fazemos do Brasil um país de voo de galinha”, diz Cristiano Teixeira, presidente do gigante de papel e celulose Klabin, para quem a saída da crise passa, também, por uma agenda ambiental ambiciosa.

No foco da empresa está convencer as autoridades da importância de passar uma boa imagem do país na próxima Conferência do Clima, a COP26, marcada para novembro na Escócia. Para empresas como Ambev, Magazine Luiza e Klabin, há espaço para pautas transformadoras que vão além do curto-prazismo. Os empresários podem contribuir com dinheiro e gestão, mas também com um ativo tão importante nos negócios quanto na construção de um país — um sonho grande.

Espiríto coletivo

A empresária Luiza Trajano, presidente do conselho do Magalu e do grupo Mulheres do Brasil, acredita que a iniciativa privada pode ajudar o Estado a ganhar eficiência ­— para além da pandemia de covid-19 | Rodrigo Caetano

Luiza Trajano: “O SUS tem a maior inteligência de vacina do mundo. O que precisamos é ajudar na gestão” (Germano Lüders/Exame)

A empresária Luiza Trajano lidera um grupo de empresários que pretende auxiliar o governo a vacinar a população. Comprar o imunizante, no entanto, não está nos planos. Trajano, que transformou o Magazine Luiza em uma das maiores varejistas do Brasil, deixa claro que há coisas que são do governo, e outras que são da iniciativa privada. O que nenhum dos lados pode deixar de se preocupar é com o desenvolvimento social do país. De sua fazenda nos arredores de Cássia, em Minas Gerais, a empresária falou à EXAME.

A pandemia está alterando a visão dos empresários sobre o papel da iniciativa privada para o desenvolvimento da sociedade?
O espírito de cidadania aumentou no Brasil. Eu canto o Hino Nacional todas as manhãs há 23 anos. Mas, como fomos colonizados e passamos por 400 anos de escravidão, as pessoas sentem que existem apenas dois papéis: o do colonizador e o do colonizado. Não sentem que o país pertence a elas. Com a desigualdade social sendo escancarada, as empresas doaram muito, mais de 6 bilhões de reais. Não apenas doaram para se sentir melhor, mas participaram da entrega, conheceram a desigualdade. Isso traz uma consciência muito grande, e o empresariado teve um papel muito importante nesta pandemia.

Qual é o objetivo do movimento Unidos pela Vacina?
Vacinar as pessoas é a única maneira de parar com o abre e fecha. Sempre deixamos claro que não vamos comprar vacina, quem faz isso é o governo. Até porque não há vacina disponível para comprar, as fabricantes já disseram que só vendem para governos. Não falta dinheiro para o Brasil, falta vacina para comprar. Não sei se dava para ter comprado antes, o que eu quero é olhar daqui para a frente e ajudar o governo.

Como será essa ajuda?
Temos três agências de propaganda e uma rede logística, até com aviões, trabalhando com a gente. Junto com a consultoria Locomotiva, fizemos um levantamento com 5.500 municípios para saber o que está faltando. Cerca de 5.300 já responderam, o Renato [Meirelles, fundador da Locomotiva] disse que nunca viu algo parecido. O que mais falta nos municípios são profissionais de saúde, comunicação e equipamentos como caixa térmica. Organizamos doadores que estão apadrinhando cada região para fornecer o que está faltando.

A inteligência e a expertise do setor privado é o que falta para acelerar a vacinação no país?
O SUS tem a maior inteligência de vacina do mundo. Não precisa da experiência do setor privado nessa questão. O que precisamos é ajudar na gestão. O governo federal é responsável pela compra. Mesmo estados como São Paulo, que compraram diretamente, ficaram com menos de 30%, o resto foi para o SUS. Por que isso? Para ter igualdade. Não é justo eu vacinar minha equipe e deixar o povo que anda de ônibus sem vacinar. Agora, não adianta culpar o que fez e o que não fez, demonizando ou mitificando as pessoas. É preciso conectar todas as pontas.

Há um plano para continuar o Unidos pela Vacina após a pandemia, como está sendo feito com o Todos pela Saúde, do Itaú?
O que eu sempre quis, junto com o Mulheres do Brasil, foi investir em ciência. O Brasil tem um histórico de cura de doenças como a febre amarela. Esta não será a última pandemia. Os vírus estão aí circulando, temos de ter a prevenção. O Todos pela Saúde, do Itaú, também virou um instituto de ciência.

Qual será seu próximo projeto na área social?
Assim que passar a vacina, quero fazer um plano estratégico de dez anos para o Brasil, abordando saúde, educação, moradia e emprego. Tudo ligado à sustentabilidade. Quando eu estive no Japão pela primeira vez, em 2015, conheci o plano estratégico deles. Já o traduzi, e agora estou traduzindo o de Singapura. São quatro frentes importantes.

O plano definirá em que lugar queremos estar na educação em 2025, por exemplo, ou na fila do SUS. Os objetivos precisam ser claros e difundidos para toda a sociedade. Ter o plano na boca do povo e um grupo de 100.000 pessoas com poder político é o caminho para fazer as mudanças necessárias [o Mulheres do Brasil tem 80.000 signatárias].

A política brasileira passa por grande turbulência, inclusive com temores de ruptura da democracia. Isso dificulta a organização da sociedade civil?
Não acredito na retomada de um país sem uma sociedade civil organizada. O Mulheres do Brasil nunca esteve tão organizado e tão forte. Não vai ter golpe porque a sociedade não vai deixar. As pessoas estão cansando dessa divisão. Sempre vai ter 10%, 15% e um lado ou de outro, mas as pessoas estão cansando.

Como a senhora enxerga o Brasil do futuro em termos de identidade nacional?
Não esperava tamanha adesão da sociedade ao Unidos pela Vacina. Não estamos levando paulada de nenhum lado. Acredito que o futuro do Brasil será este: uma grande união nacional com base na coletividade e na cooperação.

Outras bandeiras levantadas pelo Magazine Luiza, no entanto, sofreram com a polarização, especialmente nas redes sociais. Como a senhora reagiu às críticas ao programa de trainees para negros?
Foi um fenômeno de um fim de semana. Faz três anos que tentamos aumentar a presença de negros na liderança. Fomos à Universidade Zumbi dos Palmares, aos movimentos negros, mas não aparecia ninguém. O Frederico [Trajano, CEO do Magazine Luiza] deu a sugestão de criar um programa de trainees só para negros. Quem ajudou a montar foram os meninos negros da companhia e o comitê de diversidade do Mulheres do Brasil.

Foi aprovado em conselho e, na sexta-feira, às 15 horas, nossa comunicação mandou um release, até para chamar candidatos. Foi um horror no Twitter. Ficamos muito em evidência. Foram 32 horas de puro racismo estrutural. Eu já estou acostumada a quebrar paradigmas e sei que leva paulada mesmo, mas o Frederico ficou assustado. Então, ele escreveu uma carta dizendo ”calma, só estou querendo acertar na minha empresa, não é para ficar tão bravo“. Foi um fim de semana típico de internet. Mas, depois, recebemos muito retorno positivo. Os 20 trainees já estão trabalhando.

A senhora pensa em entrar para a política?
Nunca me filiei a partido político, mas sou uma política que trabalha pelo Brasil há décadas. Não sou contra partido político nem contra o processo político. Eu sempre quis que a sociedade se unisse, acredito muito no poder da sociedade civil organizada. Nunca me passou pela cabeça ter um cargo político e não estou recebendo ninguém que me procura. Agora, nunca diga ”dessa água não beberei“.

Fonte: Jornalistas Carolina IngizzaFabiane StefanoLuísa GranatoMaria Clara Dias e Marina Filippe, Exame.