Com ferramentas digitais, americano quer trazer respostas mais rápidas aos desafios das cidades

Foi só neste ano que Nova York inaugurou uma expansão da Penn Station, a mais movimentada estação ferroviária da cidade, idealizada no início da década de 1990. O Moynihan Train Hall foi desenhado para aliviar o congestionamento de passageiros na estação onde circulavam em média 650 mil pessoas por dia antes da pandemia. Leva o nome do senador democrata David Patrick Moynihan, um dos artífices do projeto. Morto em 2003, o político não chegou nem perto de ver a construção pronta.

O arquiteto Alexandros Washburn, conselheiro para obras públicas e meio ambiente do senador à época e presidente da agência criada em 1995 para supervisionar as obras de expansão da Penn Station, considera que a conclusão tardia da estação é exemplar de um dos principais problemas do planejamento urbano mundo afora: a morosidade.

“Meu primeiro projeto em Nova York demorou 25 anos para ficar pronto. Fico muito feliz, mas não foi rápido o suficiente. Não teremos 25 anos para as mudanças climáticas, temos que agir logo”, diz Washburn. “O planejamento urbano é lento demais, pouco transparente e muito caro.”

Washburn foi chefe de design do Departamento de Planejamento Urbano de Nova York entre 2007 e 2013. Em 29 de outubro de 2012, quando o furação Sandy desaguou sua fúria sobre a cidade, o arquiteto não saiu de seu bairro, Red Hook, no Brooklyn, desobedecendo ordem de evacuação de seu próprio chefe, o então prefeito Michael Bloomberg. Quis entender de perto como a enchente – o nível da água chegou a dois metros – causaria impacto no lugar.

A experiência, entre outros temas, está em seu livro “The Nature of Urban Design: A New York Perspective on Resilience” (A Natureza do Desenho Urbano: Uma Perspectiva de Nova York Sobre a Resiliência, em tradução livre), lançado em 2013. Uma de suas conclusões? Que a participação da comunidade é fundamental para a recuperação de áreas afetadas por catástrofes naturais – e também variante incontornável para se equacionar política urbana, design e finanças.

Uma das mais recentes empreitadas de Washburn é reflexo disso: a plataforma virtual inCitu, que utiliza óculos de realidade virtual para apresentar uma proposta de planejamento urbano aos moradores que serão por ela impactados. A colaboração coletiva (“crowdsourcing”, no jargão), sustenta ele, acelera o processo de tomada de decisões.

“As pessoas não têm tempo nem tampouco intimidade com plantas, desenhos, gráficos etc., ao ponto de poderem traduzir suas ideias sobre seu entorno e o ambiente construído”, pondera. “Com o software, qualquer pessoa pode ver como determinada obra funcionaria.”

Com o inCitu, os dados recolhidos são analisados em tempo real e o impacto de uma proposta é conhecido mais rapidamente e com mais precisão, diz. O software utiliza a estrutura do City Environmental Quality Review, processo de avaliação de impactos obrigatório para quaisquer projetos que venham a ser implementados em Nova York e que analisa 19 itens, de barulho a saúde pública. “Uma análise do CEQR normalmente leva um ano inteiro para ficar pronta e custa por volta de US$ 1 milhão. O InCitu funciona em tempo real e economiza mais de 90% desse valor”, afirma.

A startup de Washburn faz parte do portfólio da incubadora Schmidt Futures (de Eric Schmidt, ex-CEO de Google) e está na fase de projetos-piloto, para em seguida ser potencialmente incorporado ao modus operandi de prefeituras e construtoras.

A primeira proposta que ele vem apresentando por meio do inCitu é uma resposta ao que considera uma proliferação de centros de distribuição de gigantes do comércio, como a Amazon, em antigas áreas industriais, como Red Hook.

O “Model Block”, ou quadra modelo, um complexo de uso misto que seu escritório DRAW Brooklyn anunciou em janeiro, é um projeto que inclui residências, escritórios, indústria leve, comércio local, restaurantes e galeria de arte. Ele reflete ao menos três demandas dos moradores: moradia, emprego e cuidado com o meio ambiente.

A plataforma tem uma ampla escala de aplicabilidade, diz o arquiteto. Pode-se visualizar desde uma casa até um bairro inteiro.

“Seu potencial de crescimento é enorme e ela pode se tornar a ferramenta de planejamento a ser adotada em cidades de todo o mundo. O Model Block é um primeiro exemplo, mas já pensou se cada vizinhança de Nova York propusesse seu próprio modelo? E, claro, se existe uma maneira direta e organizada de as pessoas participarem, elas passam a ser ouvidas necessariamente. O processo de criação de políticas passa a ser feito de baixo para cima, e não de cima para baixo.”

Washburn, que já esteve no Brasil em mais de uma ocasião para fazer palestras, acredita que antigas áreas industriais de São Paulo, por exemplo, poderiam se beneficiar de projetos como o Model Block.

“São regiões com um baixo desempenho em termos de criação de empregos e que exigem das pessoas um tempo enorme de deslocamento de suas casas para o trabalho. Imagine se pudéssemos abrir, no centro da cidade, um espaço para a criatividade do paulistano, onde pudesse ter novas ideias, capazes de mudar o mundo, e torná-las realidade? E que ainda pudesse ir a pé para o trabalho?”, diz.

Sua quadra modelo, a propósito, também poderia solucionar a questão do esvaziamento, à noite e nos fins de semana, de vias onde predomina um tipo de uso, comercial ou residencial. “Em São Paulo, você sai da região central e constrói somente quarteirões e quarteirões residenciais, quase não há lojas, fábricas ou escritórios. Isso cria problema em cima de problema”, avalia, ressaltando a necessidade de pensar na comunidade.

Para Washburn, a ideia de transformar o Minhocão em uma espécie do High Line de Nova York (foto) não é adequada — Foto: Divulgação/Facebook.

“O projeto Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, deveria se chamar Meu Bairro, Minha Vida. Pense em todos os problemas como sendo parte de algo maior e eles ficam menos difíceis de lidar, às vezes eles se transformam em oportunidades, tornam-se uma ferramenta para a solução.”

Washburn também critica a taxa de ocupação da cidade: “Em São Paulo, você tem um muro, do lado de dentro há um jardim particular e, do outro, a rua, que assim se torna um lugar muito desagradável. Se, em vez do muro, você tivesse um prédio de dois andares, com lojas e talvez alguns apartamentos, então OK, você poderia ir para sua torre atrás dessa edificação. Tem que haver gente. É uma falsa virtude ter uma baixa densidade se ela está escondida atrás de uma parede.”.

O urbanista fala de outros problemas de planejamento de que a cidade sofre. Um é a Cracolândia. Washburn afirma que Nova York teve a pior epidemia de crack de que ele tem conhecimento. “Onde moro, no Brooklyn, era considerado o epicentro, entre o fim dos anos 1980 e o início da década seguinte”, lembra.

“Trabalhamos duro para romper barreiras físicas e sociais, e ainda hoje o fazemos por meio do espaço público, com todos os níveis de renda. Não é uma solução rápida, há outras abordagens, médicas e de saúde e segurança públicas, mas, a longo prazo, se você quer fazer uma mudança positiva, tem que apoiá-la com o espaço público, que qualquer um possa frequentar e se sentir respeitado e não com medo”, diz.

Outro nó urbanístico paulistano abordado por Washburn é o destino do Minhocão. A ideia de transformar o viaduto em uma espécie de High Line, o jardim suspenso nova-iorquino, não lhe parece adequada. “Seria provavelmente como a Promenade Plantée, um antigo trecho de ferrovia que se transformou num parque urbano em Paris, e que por sua vez foi a inspiração para o High Line”, lembra.

“Mas o problema com o projeto francês é que ele não mudou muito de seu entorno, que já era uma região bastante bonita. No caso do High Line, era uma área industrial decadente e nós o planejamos para ter um efeito transformativo. Criamos regras para a construção dos edifícios, o formato que deveriam ter, de modo que a iluminação e a vista a partir dele fossem preservadas. Não foi meramente uma limpeza da área e tampouco a criação apenas de um ponto de encontro.”

O arquiteto ressalta também a importância de se avaliar a viabilização econômica de um projeto do gênero, a equação entre recursos públicos e possíveis ganhos. “Nós gastamos US$ 100 milhões. Pois bem, US$ 3 bilhões foram gastos pela iniciativa privada para construir os prédios em volta. E agora, com o Hudson Yardsn [complexo que abriga lojas, restaurantes, entretenimento, hotéis etc.], são mais US$ 10 bilhões. É uma maneira incrível de alavancar receitas com recursos públicos.”.

Para o projeto paulistano, ele pondera que talvez não compense o investimento. “Por que não, em vez disso, trazer novamente à luz do dia alguns dos rios que foram cobertos? Os recursos não são ilimitados, então você precisa realmente fazer com que eles sejam bem gastos. Eu pessoalmente acho melhor descobrir os rios e reintroduzir a natureza na cidade, rever as regras de zoneamento no entorno”, diz.

Em escala global, Washburn é ainda mais ambicioso quanto ao inCitu. Argumenta que as métricas e os dados coletados por uma plataforma como tal podem ser aplicadas a futuros cenários de mudanças climáticas, levando em conta, por exemplo, emissões de CO2 e efeitos de enchentes. Em uma TED Talk de 2017, em que relembrava os problemas causados pelo furacão Sandy, o arquiteto deu um exemplo de como criar ações preventivas e, ao mesmo tempo, gerar emprego, moradia e renda para a própria cidade.

Enquanto a Prefeitura de Nova York propunha erguer um muro, para servir de anteparo à elevação do nível do mar junto a Red Hook, com um custo de US$ 100 milhões, Washburn sugeriu criar uma ilha artificial, a ser construída com areia e pedras, e com cerca de 6 metros de altura. Além de funcionar como barreira, ela poderia abrigar indústria naval, uma área residencial, mesclada com um pequeno comércio, e ainda um parque. Como pagar? Com o licenciamento de terrenos.

Entusiasta da tecnologia, Washburn, no entanto, considera imprescindível incluir a variante da resiliência social nas equações do urbanismo. “Os seres humanos vão sempre enfrentar as crises, sejam elas biológicas, climáticas, as guerras etc. E nós as resolvemos juntos e por meio de nossas cidades porque é nelas que conseguimos juntar as mentes, o capital e o desejo para resolver problemas como a pandemia, por exemplo. Onde as vacinas foram criadas? Onde as pesquisas foram feitas? Não há nada de negativo numa cidade que não possa ser corrigido pelo que há de positivo”, diz.

Fonte: Jornalista Eduardo Simões, Valor Econômico.

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