Para analistas, comunicado foi mais duro mesmo mantendo a ‘normalização parcial’

Com a decisão de telegrafar um novo aumento de 0,75 ponto percentual na Selic em junho e de flexibilizar a indicação de ajuste parcial da taxa, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) fez muitos agentes do mercado abandonarem já na noite de ontem um cenário de desaceleração do ritmo de aperto e passarem a contemplar um passo mais acelerado na normalização dos juros.

Esse processo teve início em março, com alta de 0,75 ponto na Selic. Na ocasião, o Copom indicou que pretendia fazer uma normalização parcial, ou seja, que não pretendia elevar a taxa para o chamado nível neutro – aquele que não estimula nem contrai a economia. Esse patamar seria em torno de 6,5%. Com a continuidade da indicação de ajuste parcial ontem, o Copom voltou a indicar, portanto, que não vê necessidade de elevar a taxa para esses níveis no momento.

O Bank of America manteve inalterada a projeção de Selic em 5% neste ano, mas passou a contemplar mais duas elevações de 0,75 ponto – em junho e em agosto -, e não mais três altas de 0,50 ponto. Para o ano que vem, a estimativa também foi mantida em 5,75%. “O Copom demonstrou pressa”, nota o chefe de economia e estratégia do BofA no Brasil, David Beker.

“Um dos fatores que dão apoio ao cenário do Copom está na inclusão da frase relacionada ao mandato do BC, de que a decisão também implica uma suavização das flutuações do nível de atividade e fomento do pleno emprego. Isso indica que o Copom não quer fazer aumentos nos juros que ‘matem’ a economia, mas sim uma normalização que, neste momento, considera que seja parcial”, afirma.

O BofA, inclusive, alterou ontem seu cenário de crescimento para o Brasil. O banco elevou sua estimativa deste ano de 3% para 3,4%, mas cortou a projeção para o PIB de 2022 de 3% para 2,1%. “A economia ainda tem questões estruturais importantes pela frente. Não teria motivo para ir muito além de 5,75% nos juros [em 2022]”, diz Beker.

Também projetando alta de 0,75 ponto em junho, o economista-chefe da Trafalgar, Guilherme Loureiro, nota que o colegiado optou por um ciclo “carregado” neste início, de olho na ancoragem das expectativas de inflação de médio prazo. “No caso da normalização parcial, o BC colocou de forma clara que esse é o seu cenário, mas não se amarrou a ele para poder continuar o ciclo se necessário. As expectativas de inflação de 2022 estavam começando a desancorar. Fazer esse ciclo mais carregado pode ajudar na ancoragem”, diz, que vê a Selic em 5% neste ano.

Sócio-fundador e gestor da MZK Investimentos, André Kitahara concorda que a importância da indicação de ajuste parcial dos juros diminuiu com a decisão de ontem. Para ele, isso coloca um viés de alta na Selic ao fim deste ano, ficando em torno de 5,5% e 6%. Para o gestor, outra indicação de enfraquecimento em relação à normalização parcial foi o fato de que o comunicado se comprometeu com “algum” estímulo monetário. “Isso dá a impressão de que a taxa final vai ficar mais próxima da neutra”, diz.

O economista-chefe da Gauss Capital, Guilherme Attuy, também observa um tom mais duro do Copom. “Ele reconhece um ritmo de atividade acima do esperado, apesar da segunda onda da covid; admite que a dinâmica dos preços de commodities será um pouco mais persistente que o antecipado; e, como era de se esperar, passa a se preocupar apenas com a inflação de 2022”, diz. Nesse sentido, a projeção de Selic em 5,5% da Gauss tem viés de alta, segundo Attuy.

Fonte: Por Victor Rezende, Marcelo Osakabe e Sérgio Tauhata — De São Paulo, Valor Econômico.