Margens foram comprimidas pelo aumento de custos da construção

As incorporadoras brasileiras tiveram uma queda no lucro líquido de 49,7% entre o último trimestre do ano passado e o primeiro deste ano, segundo levantamento feito pela Economatica com 24 empresas. O tombo acontece após três trimestres de resultados positivos.

A receita líquida operacional —o que as empresas receberam pela venda dos seus produtos—, por sua vez, caiu 12,6% entre o quarto trimestre de 2020 e o primeiro de 2021, o que aponta que a queda na comercialização de imóveis não foi o único motivo para a diminuição da lucratividade.

O levantamento desconsiderou a Cyrela, dado que eventos atípicos (aberturas de capital da Lavvi, Plano & Plano e Cury, joint ventures da companhia) levaram a empresa a registrar um lucro não-recorrente muito alto no terceiro trimestre, de R$ 1,47 bilhão, contra R$ 72 milhões no segundo e R$ 266,5 milhões no quarto, o que distorcia os dados do conjunto.

Para João da Rocha Lima, coordenador do Núcleo de Real Estate da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), uma explicação para a queda está nos custos de construção, que subiram acima da inflação.

O INCC (Índice Nacional da Construção Civil) atingiu uma alta acumulada de 15,25% nos últimos 12 meses, até maio, enquanto o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que mede a inflação geral, alcançou 8,06% no mesmo período.

O índice da construção começou a se descolar com mais força da inflação a partir do final de 2020, puxado pelo aumento dos custos de matérias-primas, como aço e cobre.

As incorporadoras venderam os lançamentos com uma determinada expectativa de inflação para o tempo de obra, mas se o índice é muito maior do que o esperado, a margem de lucro é comprimida.

“É natural essa queda porque os custos subiram sensivelmente, e as empresas tinham muita coisa já vendida”, afirma Lima.

José Carlos Martins, presidente da Cbic (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), também vê na alta de custos de produção a razão para a queda na lucratividade. “É muito claro que isso é estrutural, não é um aspecto isolado de cada empresa”, afirma.

Além desse fator, ele acrescenta que a própria alta na lucratividade registrada nos trimestres anteriores ajuda a explicar a queda no primeiro trimestre deste ano.

Fonte: Economatica.com

A Cbic divulgou em maio que o número de lançamentos imobiliários caiu 60% no primeiro trimestre de 2021, em relação ao último de 2020.

Para manter os lucros, uma saída para as empresas é aumentar o preço do produto final, algo que já tem sido feito e deve continuar durante o ano, de acordo com o indicador de confiança do setor imobiliário residencial, feito pela Deloitte e Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias).

Um entrave para esse repasse, no entanto, são os imóveis do programa Casa Verde e Amarela, que possuem um teto de valor —e mais de 80% dos lançamentos e das vendas residenciais nos 12 meses encerrados em março foram nessa categoria, segundo dados da Abrainc.

Como a renda da população, principalmente nas classes mais baixas, não cresceu no mesmo ritmo que a inflação, também não é possível repassar todos os aumentos ao consumidor final e manter o ritmo de vendas.

“Os custos subiram muito, e não é porque o custo sobe que a renda do mercado também sobe, muitas vezes o produto está na prateleira e precisa ser desovado e não será corrigido pelo INCC, você precisa vender relativamente mais barato para encaixar no bolso do consumidor”, afirma Lima.

A incorporadora Direcional, que tem 75% dos seus lançamentos no Casa Verde e Amarela, afirma ainda conseguir repassar parte do aumento dos custos no preço dos imóveis.

“Em São Paulo, o teto é R$ 240 mil, se tenho produto de R$ 180 mil, consigo repassar o preço”, diz Henrique Paim, diretor-financeiro da empresa. A construtora também tem uma marca para médio-baixo padrão, a Riva, com preço médio de R$ 270 mil, o que já permite operar acima do limite do Casa Verde e Amarela.

Para contornar a inflação, as empresas têm adotado novas entratégias. A Direcional, por exemplo, usa um modelo construtivo com formas de alumínio e parede de concreto, que permite erguer os prédios de forma mais rápida e com menos desperdício de material.

Outra saída adotada foi comprar matérias-primas de forma antecipada, para evitar o aumento nos custos, e renegociar contratos. “Tem que ser eficiente, quem fizer baixa renda sem experiência para ter escala, realmente vai ter mais dificuldade de manter as margens”, afirma Paim.

A Direcional apresentou queda de 34,5% no lucro líquido entre o último trimestre de 2020 e o primeiro de 2021, mas Paim diz que isso aconteceu porque a empresa tinha um quarto da sua dívida atrelada ao IPCA, e foi afetada pela alta do índice. Agora, eles trocaram a dívida para CDI.

A MRV&Co, que abrange as marcas MRV, Luggo, Urba e HS, também apresentou queda na lucratividade entre o final de 2020 e começo de 2021, de 31,6%.

Ricardo Paixão, diretor-executivo de finanças e relações com investidores, afirma que a pressão nos custos de produção fez com que o lucro do primeiro trimestre fosse menor do que o esperado pela empresa. “Isso pode, sim, impactar as margens da companhia daqui para frente.”

Porém, diz que outro fator teve contribuição maior para o resultado. A HS, subsidiária que atua nos Estados Unidos, vendeu um empreendimento no quarto trimestre, e nenhum no primeiro deste ano, o que impactou a curva do lucro líquido da companhia.

Paixão afirma também que eles estão buscando repassar parte do aumento ao consumidor. Para reduzir os gastos com a alta do preço de construção, a MRV tem adotado uma tecnologia que usa fibra de vidro em vez de aço dentro das paredes de prédios com até cinco pavimentos, além de optar pelo drywall nas paredes internas de empreendimentos em torres.

“As empresas estão se movimentando no sentido de buscar tecnologias alternativas, onde você vai ter menor dependência em algumas matérias-primas que tiveram impacto maior no mundo inteiro, com relação a variação de preço. Esse trabalho é feito justamente para manter os custos e continuar preservando a rentabilidade”, afirmou Luiz França, presidente da Abrainc, em coletiva na última quarta-feira (9).

Ele ressalta ainda que o custo de financiamento dos imóveis pelo SFH (Sistema Financeiro da Habitação) caiu nos últimos anos —a média atual é de 7,7%—, o que preserva o poder de compra do consumidor, mesmo que haja aumento no valor de venda.

“O ambiente de negócios permanece propício, com grande atratividade para o investimento em imóveis, em relação às aplicações financeiras tradicionais, e também para quem busca a aquisição da casa própria”, diz França.

A expectativa do setor é que os custos da construção entrem em fase de estabilização quando as indústrias de matérias-primas conseguirem retomar a produvitidade que tinham antes da pandemia.

Menos aumentos significariam mais previsibilidade para o setor, que lida com ciclos longos de venda e construção. “A previsibilidade é importante para os orçamentos, para termos certeza que estamos vendendo o produto a um preço correto”, disse França.

Mas Martins, da Cbic, não está otimista. Para ele, a situação só piorou no segundo semestre deste ano, e não há sinal de que vá se reverter tão cedo. Ele pede uma ação do governo federal, como a redução dos impostos de importação das matérias-primas. “Ou você faz um choque de oferta ou não vai ter resultado”.

Fonte: Por Ana Luiza Tieghi, Folha de S. Paulo.