Com os conceitos da ‘geroarquitetura’, imóveis se adaptam às necessidades da população mais velha, mas apesar da aparente facilidade, público tem demandas complexas de serem atendidas

Indicado pela ONU como uma das quatro megatendências para o século 21, o envelhecimento populacional abre um oceano de oportunidades para negócios dos mais variados setores. No Brasil, que será o sexto país do mundo com maior número de pessoas acima de 60 anos em 2050, a longevidade também deve ter impacto na economia como um todo. O mercado imobiliário tem a faca e o queijo na mão para atender a essa demanda, mas deve ficar atento. Ela pode parecer pontual e específica à primeira vista, mas na verdade é extremamente diversificada e complexa.

Segundo Bete Marin, cofundadora da consultoria de marketing Hype50+, o mercado precisa quebrar paradigmas e estereótipos para poder atender o público sênior. “Tem de entender o que essas pessoas desejam porque, atualmente, elas não estão sendo atendidas em suas vontades e necessidades”, diz.

“A última venda que fiz foi para um psiquiatra aposentado que queria comprar a casa de uma senhora de 62 anos”, disse Sonia.

No caso do mercado imobiliário, Bete fala que o primeiro passo é as empresas do segmento se darem conta do porcentual de pessoas com mais de 60 anos que formam sua clientela. “Quando passam a olhar os números, elas até se assustam.”

Bete sublinha que se trata de um público heterogêneo, com diferenças por faixa etária, gênero, região, classe social e histórico de vida. Uma coisa, porém, a maioria tem em comum. “Eles querem viver com o máximo de independência financeira e autonomia física e cognitiva. A moradia muda de acordo com isso”, explica.

Arquiteta e urbanista pós-graduada em gerontologia, a mineira Flavia Ranieri afirma que o objetivo da geroarquitetura (focada nos longevos) é enxergar o processo de envelhecimento como um todo, não só do lado biológico, mas também psicossocial. “A maior preocupação deles é manter a autonomia para continuar a fazer o que sempre fizeram”, relata. “É uma parcela da população que busca apartamentos menores e mais práticos, mas não quer o estúdio porque tem uma carga física de histórias, móveis e objetos que carrega consigo.”

À frente da Tuai – consultoria especializada na transformação e atualização da casa dos mais velhos –, a arquiteta explica que os produtos do mercado precisam associar funcionalidade e design para atender à demanda. Isso vai das áreas comuns, que devem oferecer opções que integrem essas pessoas à vida social do condomínio, ao interior das unidades. Ela está até desenvolvendo com a Deca uma barra de apoio mais moderna, que vai servir também como porta-objetos no box do chuveiro. “Muitos têm uma resistência a instalar a barra porque é como se ela jogasse na cara uma fragilidade”, diz. “Por isso o design e a funcionalidade são fundamentais.”

Alguns players já estão apostando nesse mercado. Um deles é a Cyrela, que lançou, já em 2018, o Vintage Senior Residence. Localizado em Porto Alegre, o empreendimento tem uma área multiúso onde é possível organizar cursos ou fazer ioga, espaço de gestão de saúde, piscina com barras de apoio para entrar e sair com facilidade e serviços de bem-estar como massoterapia, atividades culturais e aulas de informática, línguas, música e pintura.

Na mesma linha, o BIOOS, que deve ser lançado ainda neste semestre pela construtora Laguna em Curitiba, foi idealizado para o público acima de 60 anos dentro do conceito “age in place”, em que é a casa que deve se ajustar às necessidades da pessoa ao longo do processo de envelhecimento. O projeto terá forte foco na integração entre os moradores. Além dos 108 apartamentos de alto padrão e de uma torre médica que será construída ao lado da torre residencial, as áreas comuns vão proporcionar atividades de entretenimento que façam sentido para esse momento de vida.

Pós-aposentadoria

Do outro lado da mesa, o mercado deve ficar de olho no potencial profissional dos mais velhos. Como corretores, eles demonstram mais paciência, escuta e resiliência, além de usarem a própria experiência de vida para acertar nas negociações, segundo Bete Marin. É o caso da aposentada Sonia Sanchez, de 72 anos, que trabalhou por 30 anos no ramo de joias e, aos 62, decidiu vender sua empresa de anéis de formatura e entrar nesse ramo. Apaixonada por gente, como se define, ela fechou bons negócios mesmo na pandemia.

“A última venda foi para um psiquiatra aposentado que queria comprar a casa de uma senhora de 62 anos, enquanto ela queria reinvestir o dinheiro em apartamentos menores para colocar no Airbnb”, diz a corretora sênior.

Fonte: Jornalista Bianca Zanatta, especial para o Estadão.

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