Relatório do banco aponta que risco inflacionário permanece elevado


Por Victor Rezende — De São Paulo

O Banco Central adota uma postura correta ao indicar que a taxa de juros deverá subir a um nível restritivo diante de expectativas de inflação acima da meta. Na avaliação do Itaú Unibanco, a Selic acima do nível neutro em aproximadamente 1 ponto, ou seja, entre 7,5% e 8%, “parece consistente com o desvio atual das projeções do IPCA em relação à meta. Na avaliação do Itaú Unibanco, a Selic acima do nível neutro em aproximadamente 1 ponto, ou seja, entre 7,5% e 8%, “parece consistente com o desvio atual das projeções do IPCA em relação à meta”. No entanto, o banco considera que há “chance considerável” de o juro básico precisar subir além desse nível, “dado que o risco inflacionário permanece elevado e que existe a possibilidade de o juro neutro ser mais alto devido ao prêmio de risco fiscal”.

Em relatório antecipado ao Valor, o Itaú mostra estudos sobre ciclos anteriores e aponta que, em 2008, as expectativas inflacionárias chegaram a ficar 0,50 ponto acima da meta, enquanto a Selic foi até 1,5 ponto acima do nível neutro. Já em 2011, enquanto o desvio do IPCA em relação à meta ficou entre 0,50 ponto e 1 ponto, a Selic excedeu 2 pontos em relação ao nível neutro. No cenário de 2013 a 2015, quando as expectativas inflacionárias chegaram a desviar de 1 a 2 pontos em relação à meta, a Selic ficou 6 pontos acima do patamar de equilíbrio.

“O desvio das expectativas de inflação em relação à meta no horizonte relevante é, hoje, bem menor do que o que a gente observou no ciclo de 2013 a 2015”, nota a economista Julia Gottlieb, uma das autoras do relatório. De acordo com a profissional, com o desvio visto agora das expectativas de inflação em relação à meta, “colocar a Selic 1 ponto acima do nível neutro parece consistente”. De acordo com o Itaú, a taxa, assim, ficaria entre 7,5% e 8%.

Gottlieb, contudo, ressalta que o banco vê riscos altistas para a inflação e que poderiam pressionar ainda mais as expectativas para a Selic à frente. A economista cita a continuidade da crise hídrica em 2022, a possibilidade de a inflação de bens continuar pressionada, a chance de uma inflação de serviços mais persistente que as expectativas e o risco fiscal.

“Se tivermos medidas de flexibilização do teto que possam ter impacto na dinâmica fiscal, isso vai se refletir em um juro neutro mais elevado”, afirma Gottlieb. Ela ressalta que esse não é o cenário-base do Itaú, mas também lembra que os preços de mercado já indicam um risco moderado de aumento da taxa de juros de equilíbrio. Como exemplo, ela aponta para a NTN-B para agosto de 2050, cuja taxa está em torno de 5%.

“Não mudamos a nossa projeção de juro neutro, que continua rodando em torno de 3% em termos reais. Isso dá uma Selic neutra de 6% a 6,5%, dependendo da meta de inflação. Quando a gente olha para os preços dos ativos, temos uma ideia do que o mercado está precificando”, diz Gottlieb.

A economista diz que, “na margem, temos visto que subiu um pouco o risco de aumento da taxa de equilíbrio”. Para ela, será preciso observar se haverá uma flexibilização do teto de gastos e como isso poderia ter impacto na dinâmica da dívida mais à frente.

Outros riscos que mostram que o cenário inflacionário é assimétrico são apresentados pela economista Júlia Passabom, que dá ênfase às incertezas provocadas pela crise hídrica. “É um problema a ser enfrentado e que tem implicação para o IPCA do próximo ano”, diz. Embora a economista espere alguma normalização da situação hídrica do país, ela nota que, se a crise se prolongar, pode haver um aumento no desvio das projeções de inflação em relação à meta.

Em relação aos preços de bens industriais, Passabom observa que ainda há diversas gargalos na indústria e que os dados da Anfavea, divulgados ontem, estão em linha com essa visão. “Qualitativamente, nossa expectativa não muda e devemos observar uma desinflação na parte de comercializáveis e de bens. As commodities metálicas mostraram que fizeram um pico e o câmbio está andando um pouco de lado”, afirma a economista.

O problema, de acordo com Passabom, é que a desinflação dos preços de bens “pode demorar um pouco mais a acontecer, na medida em que o setor ainda tem muitos gargalos”. Para ela, embora o Itaú espere uma desinflação desse segmento, esse processo pode atrasar.

Já em relação à inflação de serviços, a economista observa que ela chama a atenção devido aos fatores inerciais e ressalta que existe o risco de a alta de preços nesse setor ser mais persistente. De acordo com o Itaú, “a inflação de serviços pode permanecer pressionada por mais tempo – mesmo num cenário de desemprego acima do neutro e do patamar pré-crise”.