Inflação e desemprego elevados pioram imagem do governo

O cenário de desemprego elevado e inflação alta vai continuar nos próximos meses, uma combinação que tende a pressionar ainda mais a popularidade do presidente Jair Bolsonaro. Composto pela soma da taxa de desocupação e do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA) em 12 meses, o índice de miséria calculado pela MB Associados se aproxima de 20 pontos, o nível mais alto desde setembro de 2016.

Em fevereiro, o indicador ficou em 19,8 pontos, considerando um IPCA acumulado em 12 meses de 5,2% e por uma taxa de desemprego com ajuste sazonal de 14,6%, estimada pela MB – o número mais recente divulgado pelo IBGE é o de dezembro. Para o economista-chefe da consultoria, Sergio Vale, o aumento do índice de miséria tem peso importante para o recuo na aprovação de Bolsonaro, num quadro de agravamento da pandemia e em que o auxílio emergencial deixou de ser pago neste ano.

Segundo pesquisa XP/Ipespe divulgada na sexta-feira, 45% dos entrevistados avaliam o governo como ruim ou péssimo, uma alta em relação aos 35% do fim do ano passado. A fatia dos que o consideram ótimo ou bom caiu de 38% para 30%. A pesquisa mostra ainda que 63% dos consultados dizem que a economia está no caminho errado e que 61% veem como ruim ou péssima a gestão de Bolsonaro da pandemia.

Para Vale, como a expectativa é de que o índice de miséria continue a piorar nos próximos meses, “não será difícil ver” a popularidade de Bolsonaro seguir a trajetória de queda. A inflação elevada tem afetado especialmente os mais pobres, por causa da disparada dos preços de alimentos, que pesam mais na cesta de consumo de quem tem renda mais baixa. No IPCA, a alimentação em domicílio subiu quase 20% nos 12 meses até fevereiro.

“Se considerarmos que as pressões em commodities vão continuar neste ano, será outro período de inflação de alimentos, que se junta agora a outras pressões que estão aparecendo em outros bens, com o choque cambial e a desestruturação da indústria com a pandemia”, afirma Vale. Para ele, o IPCA vai atingir 7,1% no acumulado em 12 meses até maio, fechando o ano em 4,3% – acima, portanto, da meta perseguida pelo Banco Central (BC) neste ano, de 3,75%.

O cenário para o mercado de trabalho também é desfavorável para Bolsonaro. Com a suspensão do auxílio emergencial, a economia começou o ano patinando, devendo perder mais fôlego nos próximos meses. Vários Estados e municípios passaram a adotar medidas mais rigorosas de isolamento social, devido ao forte aumento do número de casos e mortes pela covid-19. Isso vai afetar especialmente o setor de serviços, o maior empregador da economia. Nas estimativas de Vale, o desemprego, que fechou o ano passado em 13,9% na série com ajuste sazonal, ficará em 15% ou mais de abril a julho deste ano.

O índice de miséria é obviamente uma simplicação. O objetivo é dar uma ideia da sensação de bem estar na economia, combinando a evolução do custo de vida com um indicador importante do mercado de trabalho.

Vale acredita que a volta do auxílio emergencial não terá um impacto significativo sobre a economia – o valor será mais baixo, o público-alvo será menor e o benefício, a princípio, vai ser pago por um período mais curto. “O efeito vai ser bem menor. As pessoas vão pagar dívidas e comprar coisas básicas como alimentos.” Com isso, o impacto positivo do auxílio sobre a popularidade de Bolsonaro deverá ser menor do que foi em 2020.

O economista da MB diz que a inflação encerrará o ano em 4,3%, “supondo que o BC reaja com rapidez”, mas avalia que o IPCA pode ficar mais alto. “Com o acúmulo de pressões, não será difícil nós vermos uma dupla de 5: inflação de 5% e juros de 5% – 5,5% mais precisamente”, diz Vale, referindo-se ao nível que espera para a Selic no fim do ano. Nesta semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) deverá começar um ciclo de alta dos juros básicos, hoje em 2% ao ano. Ele projeta alta de 0,5 ponto percentual na reunião de amanhã e quarta-feira.

Para 2021, Vale estima um crescimento de 2,6%, “com todos os riscos políticos e de pandemia presentes”. É um número inferior à herança estatística que o ano passado deixou para este ano, de 3,6%. Isso significa que, se o PIB terminar o ano no mesmo nível do fim de 2020, a expansão será de 3,6% em 2021 – ou seja, pela previsão da MB, o PIB vai encerrar o quarto trimestre abaixo do patamar do mesmo período de 2020. A consultoria prevê recessão técnica no primeiro semestre, com retração da economia de 0,9% no primeiro trimestre e de 0,4% no segundo, nos dois casos em relação ao trimestre anterior.

Para 2022, Vale deve reduzir a projeção de 2,4% para menos de 2%. “A ideia é que haverá um impacto mais completo dos juros, que nós projetamos em 5,5% neste ano e em 6,5% ano que vem’”, afirma ele. “Junto com menos auxílio emergencial, isso pode tirar ritmo da construção civil. No fim, o investimento fica prejudicado pela incerteza política e o consumo, pela recuperação muito lenta do mercado de trabalho e pelo receio de perda de emprego pela população.”

Nesse quadro, o que os analistas começam a desenhar é uma recuperação mais lenta do que se esperava no segundo semestre e em 2022. O progresso da vacinação deverá ajudar, ao reduzir o contágio da covid-19 e abrir espaço para o relaxamento das medidas de isolamento social. No entanto, os juros mais altos tendem a segurar a velocidade da retomada.

Essa avaliação de que o crescimento de 2022 será mais modesto começa a ganhar força, indicando que a economia poderá ter um ritmo de expansão modesto no ano das eleições presidenciais. Na sexta-feira, o Itaú Unibanco reduziu a estimativa para a expansão do PIB deste ano de 4% para 3,8% (o carregamento estatístico explica quase todo o número), promovendo uma redução mais significativa para a do ano que vem, de 2,5% para 1,8%.

Na visão do banco, “três fundamentos permitiam a retomada do crescimento”: o avanço da vacinação, a expansão robusta da economia global e a manutenção dos juros baixos. “O aumento do risco fiscal e a consequente deterioração das condições financeiras impedem a manutenção dos juros em patamares mais baixos e reduz a perspectiva de crescimento adiante”, diz o Itaú Unibanco, em relatório. Um ritmo fraco de expansão do PIB em 2022, se confirmado, tira um trunfo importante de Bolsonaro na disputa pela renovação do mandato. Ainda que a inflação fique mais baixa, devido aos juros mais altos, a recuperação do mercado de trabalho não deverá ser das mais velozes.

Fonte: Valor Econômico – Por Sergio Lamucci

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