Em cenário de forte pressão de custos de insumos para as obras, empresas adotam várias medidas, como a antecipação de compras

Rafael Menin, copresidente da MRV&Co, diz que companhia já considera que a recuperação da margem bruta ocorra somente em 2022 e não mais neste ano — Foto: Marcus Desimoni/NITRO

Em um cenário de forte pressão de custos de materiais fruto das altas internacionais dos preços de matérias-primas, insumos, commodities e do real desvalorizado, incorporadoras e construtoras têm buscado alternativas de redução dos impactos dos aumentos sobre suas margens. Começa a ocorrer uma antecipação de compra no setor e algumas empresas avaliam também, quando possível tecnicamente, substituir materiais tradicionais, como aço e outros, por insumos mais baratos. As empresas têm repassado, ainda que parcialmente, as altas de custos para os preços dos apartamentos.

A MRV Engenharia – maior incorporadora brasileira – antecipou a compra de materiais de construção, no primeiro trimestre, o que contribuiu para o consumo de caixa. A companhia testou, em quatro empreendimentos do programa habitacional Casa Verde e Amarela, a substituição da tela de aço por fibra de vidro, nas paredes de concreto, e conseguiu homologar a tecnologia. A MRV pretende expandir essa aplicação na produção de edifícios com até cinco pavimentos e tem acelerado o uso de “dry-wall” em paredes internas.

Segundo Rafael Menin, copresidente da MRV&Co, conforme as variações de custos de materiais, a incorporadora definirá qual a melhor tecnologia a lançar mão em cada momento. “É como se fosse um carro flex”, diz Menin. Outra iniciativa da empresa mineira em busca de mais eficiência é a troca gradual de formas de alumínio por formas plásticas, que, diz ele, possibilitam mais produtividade.

No primeiro trimestre, a MRV registrou margem bruta de 27,8%, praticamente estável ante os 28,1% do primeiro trimestre do ano passado. Já a margem bruta ajustada teve queda de 31,1% para 30%. “Conseguimos repassar parte dos aumentos de custos para os preços dos imóveis, mas não na mesma magnitude”, diz o copresidente. Revisões de orçamento tiveram impacto negativo de 0,5 ponto percentual na margem bruta e levaram a MRV a esperar que a recuperação do indicador só ocorra em 2022 e não mais neste ano.

O lucro líquido da MRV cresceu 30,9%, entre janeiro e março, para R$ 137 milhões. A receita líquida aumentou 5,9%, para R$ 1,59 bilhão, com a maior produção. A perda da equivalência patrimonial caiu 58,8%, para R$ 4 milhões.

A Tenda é outra incorporadora que vai apostar na substituição do aço por outros materiais, com o objetivo de redução de custos. Em teleconferência recente com o mercado, o diretor financeiro e de relações com investidores, Renan Sanches, informou que a Tenda dará início à troca de aço por fibra de vidro em prédios baixos. Sanches contou que houve um “aumento tímido” de preços de imóveis, o que compensou, parcialmente, a alta de custos.

A pernambucana Moura Dubeux estocou aço para abastecimento de suas necessidades até julho. No modelo adotado pela incorporadora, 60% dos custos se referem a mão de obra e a prestação de serviços, enquanto materiais respondem pelos 40% restantes. Segundo o presidente, Diego Villar, as altas dos insumos não têm sido suficientes para afetar as margens da companhia.

No primeiro trimestre, a margem bruta da Moura Dubeux passou de 18,1% para 31,7%. Já a margem bruta ajustada, que ficou em 26,2%, de janeiro a março do ano passado, aumentou para 35,9%. A companhia reverteu o prejuízo líquido de R$ 32,3 milhões dos três primeiros meses de 2020 e registrou lucro líquido atribuído aos controladores de R$ 17 milhões. A receita líquida cresceu 143%, para R$ 161,2 milhões.

As parcelas pagas pelos compradores de imóveis dos padrões médio e alto às incorporadoras são corrigidas pelo Índice Nacional de Custos da Construção (INCC), o que acaba funcionando como “hedge”, ou seja, proteção em relação ao aumento de custos para empresas como Moura Dubeux e Trisul.

“Temos os mesmos fornecedores de materiais de construção há muito tempo. Buscamos negociações o mais eficiente possível”, acrescenta o diretor-adjunto de relações com investidores da Trisul, Michel Christensen. A companhia elevou seu lucro líquido em 13%, para R$ 35 milhões. A receita líquida cresceu 18%, para R$ 202,2 milhões. A margem bruta passou de 37% para 39%.

A RNI Negócios Imobiliários reverteu seu prejuízo de R$ 7,4 milhões e registrou lucro líquido de R$ 2,57 milhões de janeiro a março. A receita cresceu 60%, para R$ 89,6 milhões. A margem bruta ajustada passou de 24,8% para 30,7%. O resultado financeiro aumentou 16%, para R$ 7,9 milhões.

Fonte: Por Chiara Quintão — De São Paulo.