Juro baixo, alta liquidez entre investidores e companhias disruptivas explicam movimento

De uns tempos para cá, tem sido cada vez mais frequente gestoras criadas para investir em ações fecharem a compra de participações em empresas privadas, que ainda não estão listadas na bolsa. Verde e Absoluto entraram numa rodada de capitalização do Nubank. A Atmos olhou para um participação na Compass. Velt e Brasil Capital investiram na MadeiraMadeira.

Isso não é novidade. Dynamo e Leblon Equities, por exemplo, atuam assim há um bom tempo. Mas, na percepção de gestores, o cenário atual favorece o incremento do investimento em empresas sem liquidez. Juros baixos elevam o apetite por risco e num momento de muita liquidez global. E a pandemia acentuou a necessidade de digitalização nas empresas, favorecendo aquelas de tecnologia, “disruptivas” e com potencial exponencial de crescimento.

Entrar em um negócio antes da abertura de capital é uma maneira de acompanhar a valorização do IPO

“As pessoas estão na busca de investir no próximo potencial unicórnio”, diz uma fonte, referindo-se ao apelido de startups de tecnologia avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. “Antes tinha um ou outro unicórnio por aí. Hoje em dia, tem um monte de empresas avaliadas no bilhão e que você nunca nem tinha ouvido falar”, diz a fonte.

Sempre fez – e sempre fará – parte da rotina dos gestores da bolsa olhar também as empresas fechadas. “Essas empresas sempre querem morder um pouco do lucro das grandes, que geralmente são listadas. Quem falou com o Street [André Street, um dos fundadores da Stone ] em 2015 pulou fora de Cielo ”, diz um gestor.

Christian Klotz, sócio da Brasil Capital, destaca que, por muito tempo, para acompanhar melhor as ações investidas, bastava olhar a concorrência dentro da própria bolsa. Por exemplo, se o desejo era aprender mais sobre Itaú, era só estudar também o Bradesco. “Mas hoje a competição vem de empresas nacionais, estrangeiras e das novatas, que estão trazendo disrupção ao mercado. Parte do nosso trabalho é justamente identificar esses pequenos disruptores”, afirma Klotz. Essas empresas, ele diz, estão alterando o modelo econômico de setores tradicionais.

Na Leblon Equities, a possibilidade de investir em companhias fora da bolsa já nasceu com a gestora. “Desde que montamos o negócio, em 2008, tínhamos a percepção de que ter essa flexibilidade seria relevante. Volta e meia as empresas listadas estão mais caras, não se encontram oportunidades. Mas elas sempre aparecem no mundo privado, onde a assimetria de informações é maior”, diz Pedro Rudge, sócio da gestora carioca.

Na análise dele, dado o ambiente de juros baixos e uma certa explosão de novas ofertas iniciais públicas (IPO, na sigla em inglês), os gestores começaram a olhar essas empresas para tentar ter exposição antes de elas irem à bolsa, quando o preço de entrada tende a ser mais salgado. “Os valuations dos IPOs têm sido em patamares mais interessantes para os vendedores”, ele diz. Assim, entrar antes da abertura de capital é um jeito de acompanhar a valorização do IPO.

Rudge diz que a barganha maior de preço de entrada é em investimento de mais longo prazo, dez anos ou mais, que se assemelha ao private equity. Quando ele acontece no chamado pré-IPO, o risco é um pouco mais baixo – a companhia já está mais estruturada e o desconto tende a ser menor.

Na Brasil Capital, a possibilidade de investir em ativos ilíquidos veio há um ano, ou quatro anos após a abertura de escritório em Nova York, que trouxe tanto cotistas de longo prazo, como fundos de pensão, soberanos e endowments, quanto o veículo adequado para o investimento, diz Klotz.

Dentro da regra dos fundos de investimentos em ações (FIA) no Brasil, o investimento em ações de empresas sem liquidez não é viável. Entre outras razões, porque o resgate nesses fundos é diário ou de curto prazo, em 30 ou 60 dias. Um investimento numa empresa não negociada na bolsa poderia ser um complicador num momento de honrar eventuais resgates.

Lá fora é possível misturar ativos líquidos e ilíquidos no mesmo portfólio híbrido. Uma vez adquirida, a participação na empresa sem liquidez fica segregada num “side pocket”, sem possibilidade de resgate. Em média, o “side pocket” pode concentrar até 20% do patrimônio líquido do fundo.

Os investimentos feitos pela Leblon também foram sempre via fundos offshore, com os “side pockets”. “Não se pode correr o risco de ter um passivo inadequado nesse tipo de investimento”, ele diz. Rudge acrescenta que a Anbima encaminhou à audiência pública da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sugestões para que esse tipo de veículo seja adotado aqui.

Mas, segundo informações de mercado, há gestores fazendo esse investimento nos fundos locais, o que pode vir a ser um grande risco. “Por mais que o gestor coloque uma posição pequena do fundo, se a janela de mercado ficar difícil e ele tiver resgates, poderá ficar numa situação complicada por conta desse descasamento de prazo entre ativo e passivo”, diz um gestor que prefere não se identificar.

É possível fazer esse investimento num FIA, por exemplo, se a empresa já tiver registro de companhia aberta e a expectativa de fazer uma oferta de ações no curto prazo. “Do ponto de vista de mercado é muito positivo, porque você está dando mais acesso a capital aos empreendedores, e do lado do gestor, acessar um pouco antes o negócio fará com que capture um ganho extra”, diz a fonte, que ressalta que muito do processo de criação de valor numa empresa se dá logo antes do IPO. “Mas e se a empresa não conseguir fazer esse IPO em dois anos? Por isso vejo a movimentação com cautela. A sensação é que estamos num momento aquecido de mercado e os players não estão avaliando adequadamente o trabalho e o risco do investimento privado, bem como a chance de as empresas investidas virarem públicas”, diz. A outra questão que ele aponta é que há negócios avaliando empresas fechadas quase no preço de um IPO. “Sem liquidez, a empresa deveria ter mais desconto. Mas não estou vendo muito desconto por aí”, diz.

Também se fala no mercado que, nesses investimentos, muitas vezes os próprios gestores colocam recursos próprios. “Eles mesmos ancoram e chamam os principais investidores”, diz outra fonte. A disparada do número de investidores via plataformas tem elevado o ganho desses profissionais.

Outra grande motivação de investidores em participar dessas operações seria a possibilidade de investir em empresas que, claramente, não vão abrir o capital na B3, mas nas bolsas americanas. E uma questão que se apresenta nas discussões é, se esses fundos de bolsa investem antes do IPO, no momento da oferta, faltará investidor interessado na operação? Um dos gestores ouvidos pelo Valor diz que para bons negócios, no preço certo, nunca falta investidor.

Klotz, da Brasil Capital, diz que esse nicho vem aparecendo também porque as empresas estão decidindo ficar privadas por mais tempo. “Várias companhias já poderiam ter ido para a bolsa há alguns anos, mas decidiram esperar, por questões estratégicas, inclusive”, diz. A empresa privada não precisa mostrar seus números para os concorrentes. Se ela estiver em fase de consolidação, tende a ser mais favorável fazer isso debaixo do radar do mercado, sem ter de divulgar detalhes das transações.

Segundo Klotz, a intenção da gestora é estar mais bem preparada, do ponto de vista informacional, para eventualmente aumentar sua participação em um IPO. “O processo de análise de um IPO, que envolve a empresa e o setor, precisa ser feito pelos gestores em duas ou três semanas. Dada a profundidade da nossa análise, não conseguimos fazer a diligência completa nesse prazo. Então, já ser investidor antes do IPO nos fará ter mais conhecimento e até aumentar participação ”, afirma Klotz.

O primeiro investimento da Brasil Capital com esse mandato foi na MadeiraMadeira e outros estão a caminho, segundo Klotz. O foco são empresas de tecnologia, disruptivas, com alto crescimento, acima de 25% ao ano, e já com uma oferta pública inicial de ações no horizonte.

O cheque que a gestora faz para a empresa pública é maior do que para a privada. “Mais relevante do que o que ganhamos nessas companhias é o conhecimento e relacionamento que nos agrega como gestores”, diz Klotz. O escritório de Nova York veio porque a Brasil Capital queria estar mais próxima das teses de tecnologia globais para tentar traduzir “quando e como” elas aconteceriam no Brasil.

Apesar de concordar que a movimentação atual é bastante relacionada a empresas de tecnologia, Rudge avalia que ela não se restringe a isso. “Tecnologia está na moda. São teses de investimento que estão com mais facilidade de serem vendidas do que no passado. Mas não está restrito apenas a isso, é também no mundo físico”, diz. A razão para a “onda” em “techs”, ele avalia, vem com a pandemia. “Nessa crise, empresas digitais estão se destacando. É razoável que haja mais atratividade nesse setor”, diz.

A Leblon Equities já fez meia dúzia de investimentos em empresas fora da bolsa. Normalmente fica por um longo período de tempo, e depois vende a participação, o que pode acontecer num IPO. Rudge destaca que o gestor de fundo aberto não coloca a mão na massa, como faz o gestor de private equity, que assume cargos na companhia, por exemplo. “Por essa razão, a nossa ideia é sempre encontrar um ativo que ande sozinho e a demanda de tempo nosso dedicado a ele não seja tão grande, porque temos que administrar também os investimentos líquidos”, diz Rudge. Nas duas modalidades, a Leblon pode indicar conselheiros.

A Dynamo investe em ativos ilíquidos desde o início dos anos 2000, sempre em fundos offshore. Já teve na carteira XP e Oceanpact, como exemplos. Agora, está renovando a aposta na Smartfit, comprando mais ações no IPO. A gestora carioca não deu entrevista. O que se diz no mercado é que ela nunca optou por um braço de private equity porque esse é um investidor que tem prazo. Se ele investe por 10 anos, a partir do quinto, certamente começa a pensar em desinvestimento. Na visão de um gestor, isso pode desalinhar o trabalho de parceria da gestora, que prefere trabalhar sem data de saída.

Fonte: Por Ana Paula Ragazzi — De São Paulo.