O papel agride menos o ambiente, porém o consumo de polpa de celulose também preocupa pelo desmatamento; pesquisadores buscam soluções

Smarties, da Nestlé, agora com nova embalagem para preservar o ambiente – sem tampa de plástico nos tubos — Foto: Reprodução do site da empresa

Os consumidores que cresceram com os Smarties, da Nestlé, frequentemente têm boas memórias do barulhinho da abertura das tampas de plástico dos tubos cheios de chocolates revestidos de açúcar.

A partir de agora, no entanto, eles terão uma experiência diferente. Neste ano, a maior processadora mundial de alimentos eliminou as tampas, como parte da mudança para uma embalagem inteiramente de papel em todos os produtos Smarties — como parte de uma iniciativa que almeja ajudar a reduzir a produção de plástico mundial e que, nesse caso específico, tenta evitar o uso de 400 toneladas do
material por ano.

“As embalagens de papel são mais favoráveis ao ambiente porque o papel vem de fontes renováveis [em contraste] com o plástico, que vem de recursos fósseis”, diz Bruce Funnell, chefe da área de embalagens na Nestlé.

Os Smarties são apenas um exemplo dentro do número cada vez maior de bens de consumo trocando as embalagens de plástico pelas de papel, à medida que cresce a consciência sobre o impacto das emissões resultantes da produção de plásticos feitos de combustíveis fósseis — assim como sobre a poluição dos oceanos causada pelo lixo plástico.

A Unilever vai lançar em 2022 frasco de sabão líquido da marca Omo para roupas feito à base de polpa de celulose — Foto: Divulgação/Facebook

A Unilever anunciou neste mês ter criado o primeiro frasco de sabão líquido para
roupas feito à base de polpa de celulose, que será lançado em 2022 para sua marca
Omo — também conhecida como Persil, Skip ou Breeze em determinados países.

Da mesma forma, a Mars promove um teste em grande escala com embalagens de papel para suas barras Balisto, na Alemanha, enquanto a Diageo até criou uma
garrafa de papel para o uísque Johnnie Walker, que estará disponível em lotes
pequenos da versão de 700 ml do Black Label. O papel facilita tanto o transporte,
por ser mais leve que o vidro, quanto o processo de reciclagem, por consumir
menos energia.

A mudança, porém, traz desafios técnicos — especialmente quando se trata de armazenar líquidos ou alimentos, já que o papel e a polpa são mais permeáveis e menos duráveis que o plástico. “Embora o papel seja um dos produtos mais reciclados, quando usado sozinho carece das suficientes propriedades funcionais e
de barreira para ser usado em alimentos”, explica Funnell.

Revestimentos alternativos

Cientistas da Nestlé, de outras empresas de bens de consumo e de fabricantes de embalagens vêm trabalhando para criar revestimentos que sirvam de proteção contra o vapor de água, o oxigênio e outras substâncias e, ao mesmo tempo, permitam que as embalagens sejam seladas a calor e possam ser facilmente
recicladas ou decompostas. Papéis revestidos com plásticos são amplamente usados, mas sua combinação de materiais dificulta a reciclagem e, normalmente, não podem ser incluídos na separação de lixo reciclável doméstico.

A Diageo criou uma garrafa de papel para o uísque Johnnie Walker, que estará disponível em lotes pequenos da versão de 700 ml do Black Labe — Foto: Reprodução / Facebook

A Unilever e a Diageo estão usando a tecnologia da Pulpex — uma empresa que se aliou a uma série de nomes, como a divisão de bens de consumo medicinais da GlaxoSmithKline, para desenvolver embalagens feitas de polpa de celulose curada e modelada.

A Pulpex estima que quando sua tecnologia é usada para substituir garrafas de plástico ou de vidro diminui a pegada de carbono, respectivamente, em cerca de 30% e de 90%.

“Como as taxas de reciclagem do papel e cartão são muito maiores que as de plásticos em muitos mercados, as embalagens à base de polpa têm mais chance de realmente serem recicladas e se tornarem mais ‘circulares’”, diz Richard Slater, chefe de pesquisa e desenvolvimento da Unilever.

Os pesquisadores estão trabalhando para expandir a linha de produtos que podem ser embalados em pacotes à base de polpa. A Pulpex trabalha em uma versão de sua embalagem que serviria para bebidas gasosas, enquanto a Unilever informa estar trabalhando em um mecanismo de fechamento da garrafa sem plástico.

As novas embalagens também exigem mudanças no processo de fabricação. A Nestlé informou ter adaptado as linhas de produção para que o papel seja manejado com cuidado, de forma a não ser torcido ou perfurado.

Embora essas mudanças já estejam levando versões às prateleiras dos supermercados com novos visuais bem distintos, seu impacto ainda é limitado.

Sander Defruyt, que lidera a iniciativa New Plastics Economy, na Fundação Ellen Macarthur, diz que embora trocar os materiais possa ajudar, não é uma resposta plena para a dependência da economia dos bens de consumo em relação às embalagens de uso único.

Solução efetiva

“A substituição dos materiais de plástico pelos de papel, ou por qualquer outra substância, claramente não é a solução”, diz. “Isso não está abordando algumas das raízes fundamentais desse importante problema de desperdício que temos em nossa economia linear para os resíduos. Precisamos repensar esse modelo. Como podemos entregar produtos aos consumidores, que não tenham necessidade de embalagens ou que tenham embalagens reutilizáveis?”

Fabricantes de bens de consumo têm se empenhado em aumentar o conteúdo de plástico reciclado em suas embalagens e em substituições — como a troca para o papel. Mas têm apresentado menos sucesso na substituição por embalagens reutilizáveis ou que possam ser recarregadas, como a SodaStream, da Pepsi, segundo a Fundação Ellen Macarthur.

Além disso, se a demanda por papel para embalagens aumentar muito, também há a preocupação quanto ao desmatamento, um grande fator nas mudanças climáticas, que é agravado pela indústria de polpa de celulose. “Precisamos reduzir nosso consumo de madeira em geral, globalmente — esse é um dos fatores a se levar em conta”, diz Defruyt.

A Unilever está comprometida a ter uma cadeia produtiva livre de envolvimento com o desmatamento até o fim de 2023, enquanto a Nestlé tem meta similar para 2022, cuja data originalmente era 2020. Mas o desmatamento em áreas fundamentais, como a Amazônia, continua se acelerando.

Os fabricantes de bens de consumo dizem também estar procurando outras soluções. A Unilever, por exemplo, está lançando o desodorante Dove em uma embalagem de aço inoxidável recarregável, além de ter ampliado um teste na rede de supermercados Asda com produtos de muitas de suas marcas que também podem ser recarregados. Slater diz que a Unilever continua a “inovar num conjunto de soluções”, embora ressaltando que “não há uma solução mágica”. (Tradução de Sabino Ahumada).

Fonte: Por Judith Evans — Financial Times.

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