Estudos obtidos por SA Varejo levantam um questionamento no setor: as inaugurações estão sendo feitas de forma saudável?

Alessandra Morita e Alessandra Taraborelli

Foto:iStock

Logo no início da pandemia, em março do ano passado, o cenário de incerteza, somado à falta de informações sobre a Covid-19, levantava dúvidas sobre a viabilidade de se manter em pé as inaugurações planejadas. Mas não foi isso o que aconteceu de lá para cá. O varejo alimentar foi um dos poucos canais que continuaram com as portas abertas, o que, aliado à migração do consumo para dentro de casa, elevou as vendas em patamares altos. Dessa forma, foi possível continuar abrindo unidades e crescendo organicamente

20% de crescimento no número de lojas no ano passado entre as 320 maiores empresas do varejo alimentar em faturamento

905 é a quantidade de novas unidades em 2020 entre as 320 maiores redes

35 – essa tem sido a média de notícias ao mês publicadas sobre expansão no portal da SA Varejo em 2021

245 Foram as veiculações sobre abertura de lojas em sete meses, considerando a média mensal

É importante ressaltar que estamos falando de um universo de empresas que, de alguma forma, trabalha para divulgar na mídia as aberturas realizadas. São, portanto, varejistas mais estruturados. Isso significa que, se considerarmos todos os portes de redes, o número tende a ser muito maior.

O fato mais importante, contudo, é que esse crescimento acelerado tem feito algumas discussões ganharem força no setor:

  • Está acontecendo um excesso de inaugurações?
  • As expansões estão dentro de um planejamento estratégico?
  • As filiais abertas estão canibalizando vendas?
  • A receita das unidades recentemente inauguradas está alinhada ao potencial do bairro ou região?

Para avaliar o impacto das inaugurações no autosserviço alimentar, SA Varejo levantou alguns dados para servirem como ponto de partida:

-4,4% – Queda nas vendas por loja do varejo alimentar no ano passado. A taxa de variação desconta a inflação média de 2020, que foi de 3,21% pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), do IBGE

60,2 mil reais/ano – foi quanto esse indicador alcançou em valor. O dado foi calculado por SA Varejo a partir de informações internas e de mercado

60% dos imóveis cuja viabilidade foi analisada pela GS Ciência do Consumo, empresa especializada nessa área, são descartados. O dado foi levantado pela companhia com exclusividade para SA Varejo

Com base nesses dados e em conhecimento do mercado, especialistas ouvidos por SA Varejo refletiram sobre o atual cenário de expansão do varejo alimentar. Veja os principais pontos analisados por cada um .

Necessidade de um plano estratégico

Partir de uma estratégia de crescimento orgânico para definir os locais e regiões em que se deve abrir novas lojas gera melhores resultados para a empresa. É o que avalia Fernando Gibotti, CEO da Synapses Holding , grupo ao qual pertence a GS Ciência do Consumo . “Acreditamos na construção de uma lógica de expansão sustentada a partir de uma estratégia desenhada”, reforça. Para ilustrar essa ideia, ele cita um caso hipotético de uma rede que opere, por exemplo, em um Estado geograficamente grande, como Goiás, Minas Gerais ou São Paulo. Suponha que essa empresa queira se expandir para o interior e abra uma loja em uma cidade a 500 km da capital, onde atua e tem sua área de dominância.

É comum, explica Gibotti, que unidades isoladas como essa do exemplo não consigam garantir a mesma qualidade e entrega de valor ao consumidor que as demais, além de contar com custos operacionais e logísticos altos. Em um plano mais estruturado, avalia ele, seria feito um estudo científico, com base em dados, para avançar no interior. Essa análise identificaria as principais “artérias” entre a capital e a cidade a 500 km dela, onde seria interessante mercadologicamente abrir lojas e ir ganhando escala. “Com isso, essa expansão teria custos menores à medida que novas unidades fossem inauguradas nessa rota”, explica o CEO da Synapses Holding. Segundo ele, normalmente o supermercadista recebe do mercado imobiliário opções de terrenos disponíveis e, a partir disso, realiza uma análise de viabilidade.

“O que sugerimos é o varejista primeiro desenvolver um plano que considere quais as melhores regiões para se abrir uma loja e, com base nisso, buscar as oportunidades de imóveis, e não o contrário”

Fernando Gibotti
CEO da Synapses Holding

Espaço para novas lojas depende do formato

Avaliar se existe um excesso de inaugurações no varejo alimentar é complexo e precisa ser observado sob vários aspectos, como pontua Sérgio Nóia, executivo de varejo com passagem pelo GPA, Carrefour e que também foi CEO de empresas nacionais com controle familiar. De acordo com ele, a análise depende da região, do formato, posicionamento e modelo de negócio. “Atacarejos, por exemplo, ainda têm espaço para abertura fora dos grandes centros do Brasil, porém, muito seletivamente em algumas cidades ou bairros com baixa penetração do formato”, diz.

Digitalização para rentabilizar novas lojas

O avanço do e-commerce pode beneficiar unidades que estão sendo inauguradas ou que foram abertas há pouco tempo. Para Leonardo Marques, professor do Coppead-UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), essas filiais são uma opção para atuar como minicentros de distribuição, integrando canais de vendas físicos e online. Por um lado, a iniciativa pode reduzir o faturamento por loja, mas, em contrapartida, ajuda a rentabilizar essas filiais. Marques também avalia que muitas inaugurações são fruto de oportunidades que os varejistas estão vendo nas luvas e nos aluguéis dos imóveis. “É fundamental analisar o potencial do mercado, o risco de canibalização das lojas atuais, entre outros pontos, antes de tomar uma decisão de expansão”, diz o professor.

Uma combinação de informações e feeling, aliás, é apontada como algo bom e ideal por especialistas em varejo. “Um mix entre o conhecimento dos sócios da rede somado a uma análise de geolocalização por meio de empresas especializadas rendem boa análise, pois esses fornecedores têm softwares que mapeiam as regiões utilizando dados populacionais, renda per capita, número de domicílios, perfil sócioeconômico entre outras informações”, diz Sérgio Nóia, executivo que atuou em empresas como GPA, Carrefour e foi CEO de redes familiares.

Expansão Cuidado com a alavancagem desnecessária

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Fontes ouvidas por SA Varejo comentam que alguns varejistas podem estar muito próximos do seu limite financeiro em função da agressividade de inaugurações que vêm sendo realizadas. A questão da alavancagem não pode ser um impeditivo para os planos de expansão, mas precisa ser vista com cuidado. “Esse é um tema muito específico de cada companhia, depende do perfil de sua estrutura financeira, do tipo de endividamento e de suas fontes de financiamento. Mas é certo que algumas empresas estão acelerando sua expansão e aumentando sua alavancagem e seu grau de risco financeiro, esperando obter um retorno atrativo com essa estratégia”, afirma Rodrigo Catani, head de potencialização de vendas da AGR Consultores .

Para ele, o risco tem que ser avaliado caso a caso, confrontando com o retorno estimado. “Muitas vezes surge uma oportunidade imperdível que, se não for aproveitada, pode dar chance para um concorrente avançar. Então, quando for um risco aceitável para a empresa e fizer parte do plano estratégico, pode valer a pena, se a questão financeira for bem equacionada”, diz o especialista. Catani reforça ainda a necessidade de se manter o fluxo de caixa saudável, uma vez que o setor opera com margens líquidas baixas.