Escalada de casos e óbitos neste momento tem potencial para ser tão ou mais crítica que na crise anterior

Pacientes com covid-19 em hospital em Santo André (SP) em março: com aumento de casos e internações, governo estadual recua de flexibilizar restrições — Foto: Edilson Dantas/O Globo

Os gatilhos para a terceira onda da pandemia no Brasil já foram disparados e a crise pode ganhar contornos mais acentuados já em junho, se não houver consenso nacional para restringir a circulação de pessoas, alertam especialistas. Frente ao cenário de disseminação das novas variantes do coronavírus e com a vacinação ainda em marcha lenta, a nova escalada nos indicadores de casos e óbitos, segundo os técnicos, só poderia ser contida com decreto de lockdown e ampla testagem da população.

Epidemiologista da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Pedro Hallal conta ter calculado, há algumas semanas, que a terceira onda demoraria de um a dois meses para começar a se formar, mas já reviu as estimativas. “Ao que tudo indica, agora está muito próxima. Algo talvez já para o começo de junho, precipitada pelos excessos recentes das cidades ao promoverem a reabertura de atividades.”

Um dos fatores que o orientam nessa previsão é que, apesar de ainda não haver comprovação de que variante proveniente da Índia seja mais agressiva que as demais que circulam no Brasil, grande parcela dos brasileiros ainda é vulnerável. “As melhores estimativas apontam que temos entre 20% a 25% da população apenas protegida, seja por vacina, seja por infecção anterior. Então temos ainda cerca 80% das pessoas suscetíveis à covid.”

Com uma nova aceleração, o número de mortos por covid-19 chegaria perto de 600 mil em agosto, segundo cálculos do pesquisador e matemático Osmar Pinto Neto, da Universidade Anhembi Morumbi. Ele desenvolveu modelo que projeta cenários de evolução da pandemia, em cima de 29 variáveis, como vacinação, taxa de transmissão do vírus, histórico de mobilidade social, além de óbitos e infectados já registrados.

O método, publicado na revista “Nature”, previu em março que 150 mil mortes poderiam ser evitadas se a vacinação avançasse e 50% da população já estivesse vacinada em junho. Desde então, porém, a imunização com duas doses avançou muito pouco, chegando a 10% – e cerca de 155 mil pessoas morreram pela doença no país.

Para Pedro Hallal, uma escalada de casos e óbitos neste momento tem potencial para ser tão ou mais crítica que a última. “Nossa maior preocupação é que a terceira onda está se avizinhando, é inevitável que vai chegar. Combinada com uma circulação descontrolada da cepa indiana, por exemplo, poderia ser tão ou mais grave que a anterior, que foi impulsionada pela cepa P.1 [mutação brasileira].”

Os alertas em relação às variantes e os sinais de que começam a se espalhar aumentam a cada dia. A variante indiana foi identificada em passageiro que desembarcou no aeroporto de Guarulhos no dia 22, com diagnóstico confirmado pelo Instituto Adolfo Lutz. A informação foi divulgada ontem pelo governo de São Paulo, que desistiu de anunciar no dia 1º flexibilização da medidas restritivas.

O governador João Doria (PSDB) prorrogou até 14 de junho a chamada fase de transição do Plano São Paulo. O adiamento do relaxamento das restrições se deve ao aumento de casos e internações em todo o Estado nas últimas semanas, tanto na rede hospitalar pública, quanto na privada.

Fica então adiada a ampliação para 60% do limite de ocupação de estabelecimentos de comércio, academias, salões de beleza, entre outros segmentos. O funcionamento segue das 6h às 21h, com limite de ocupação de 40% da capacidade, e toque de recolher para a população das 21h às 5h.

Embora sinalize que há risco de novo colapso na saúde, a decisão do governo de São Paulo fica aquém do que a médica sanitarista Gulnar Azevedo e Silva, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, considera necessário para o país. Para ela, há sinais claros de que os indicadores da pandemia estão de novo em aceleração.

“Estávamos com um padrão melhor, e essa tendência está começando a se reverter em vários Estados. Ontem, tivemos 2.173 óbitos no país, um patamar que não nos dá segurança.” Gulnar se refere aos números do boletim divulgado pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

Segundo ela, a covid-19 é uma doença “traiçoeira” – armadilha da qual o país não consegue sair. “A gente vê os casos subindo, o que começa a pressionar o sistema de saúde, e 15 dias depois as pessoas começam a morrer. Mas não devido a uma variante em si, morrem porque hospitais entram em colapso e começa a faltar estrutura.”

“Acho que seria necessário fazer, sim, neste momento uma grande investida na restrição da circulação de pessoas, combinada com vigilância epidemiológica e testagem em massa”, avalia Gulnar. Isso embute, segundo a médica, ampliar consideravelmente a vigilância genômica, a fim de monitorar novas gerações do coronavírus com maior potencial de transmissão. A ideia agora, frisa ela, é não medir esforços para interromper a cadeia de transmissão.

A epidemiologista reforça que o país reúne as condições para o recrudescimento da epidemia nas próximas semanas. Atividades nas cidades flexibilizadas e a quase ausência de controle do fluxo de pessoas em portos e aeroportos são o motor de uma escalada, aponta.

“Isso não está sendo feito corretamente, é a verdade. Nossas autoridades políticas e sanitárias não empregaram todos as medidas de que dispomos para conter a entrada de variantes ou a transmissão delas. E fica sempre tudo a cargo da ação dos municípios, de Estados, sem coordenação federal.”

Para Pedro Hallal, só um lockdown nacional por três semanas semanas poderia abrandar a epidemia até que boa parcela da população fosse imunizada. “A ideia é ao menos fazer com que as ondas se completem e acabar com essa ressaca da qual não saímos”, pondera ele, ao citar como bem-sucedida a experiência de Araraquara (SP), que reduziu os casos de covid em mais de 70% após promover confinamento.

Outro esforço que o epidemiologista aponta ser necessário é acelerar a vacinação. “A gente começou com cerca de 300 mil, chegamos a 800 mil, depois caímos. É importante voltar à média de 1,5 milhão de doses por dia, o que na verdade é a saída que tem mais chances de se tornar realidade.”

Apesar dos sinais que apontam para a proximidade de uma terceira onda já em junho, o modelo desenvolvido pelo pesquisador Osmar Pinto Neto aponta que isso pode ocorrer um pouco mais para a frente, em agosto. Mas o aumento dos casos agora deve levar a restrições de circulação, diz ele, o que pode postergar o recrudescimento.

E paradoxalmente, aponta o matemático, uma nova queda levaria ao relaxamento de medidas e a uma nova onda de covid, a menos que a vacinação seja acelerada. Osmar Neto, contudo, chama atenção para a dinâmica caótica da pandemia. “Há muitas incertezas. Agora, a maior delas é a variante da Índia, preocupação que há dois meses não existia,”

Fonte: Por Leila Souza Lima e Ana Conceição — De São Paulo.