IbreFGV discute como virada na demografia e na globalização pode afetar inflação e custo do dinheiro

José Julio Senna, do IbreFGV: “A relação de dependência em nível global já passou do ponto de inflexão” — Foto: Claudio Belli/Valor

O envelhecimento da população mundial e uma possível virada no processo de globalização poderão levar a juros maiores em várias partes do mundo, mas não necessariamente a uma inflação superior à que tivemos nas últimas décadas.

Essa é a visão de José Júlio Senna, diretor do Centro de Estudos Monetários do IbreFGV. O entendimento foi exposto num seminário interno da instituição que discutiu um recente livro dos economistas Charles Goodhart e Manoj Pradhan, no qual desafiam a tese da morte da inflação e do dinheiro barato nos países desenvolvidos.

De 1980 para cá, a demografia atuou como um vento favorável, com maior participação de mulheres no mercado de trabalho e a integração dos trabalhadores chineses nas engrenagens de produção mundial. A globalização também ajudou, com o ingresso do Leste Europeu no mundo capitalista e a aceitação na China na Organização Mundial do Comercio (OMC).

Mas Goodhart, ex-diretor do Banco da Inglaterra, e Pradhan, ex-executivo do Morgan Stanley, argumentam no livro “The Great Demographic Reversal” (A Grande Reversão Demográfica, numa tradução livre) que essas forças já estão mudando de direção.

Semanalmente, o IbreFGV faz uma reunião interna sobre os temas econômicos do momento. Desta vez, Senna puxou o debate com uma leitura crítica do livro, que foi seguida de discussões com seus colegas, como Luiz Guilherme Schymura, Silvia Matos, Samuel Pessoa e Braulio Borges.

Com o envelhecimento da população, argumentam Goodhart e Pradhan, há menos trabalhadores na ativa para produzir riquezas para sustentar crianças e idosos. Essa virada já aconteceu no Japão e Alemanha nos anos 1990, nos Estados Unidos e Reino Unido por volta de 2010, e está em curso mesmo na China, Rússia e na Coreia.

“A relação de dependência em nível global já passou do ponto de inflexão”, disse Senna, referindo-se à relação do número de crianças e idosos para cada trabalhador na ativa. Nas economias avançadas, a relação de dependência já está em cerca de 55% e, nos próximos 30 anos, deverá superar 70%.

Em paralelo, a globalização perdeu força a partir de 2011, com a reação de trabalhadores de países avançados que ficaram para trás e passaram a votar em políticos populistas de direita que defendem agendas para limitar o fluxo internacional de comércio, pessoas e capitais.

Uma consequência dessa inflexão é a alta dos juros e da inflação, segundo os autores. A China já não será mais uma força tão potente para baixar os preços de bens, já que deixará de ter a abundância de mão de obra barata e os canais do comércio mundial tendem a ficar mais obstruídos. Outra consequência é um menor crescimento da economia mundial.

Com governos endividados, os bancos centrais teriam constrangimentos para subir os juros de curto prazo para debelar a inflação – e a repercussão nos mercados seria uma alta mais permanente nos juros de longo prazo. “O argumento é inclusive o de que teremos uma ameaça à independência dos bancos centrais”, afirmou Senna.

Em paralelo, a reação antiglobalização tenderia a fortalecer a sindicalização e o poder de barganha dos trabalhadores. Em tais circunstâncias, deve haver um aumento da chamada taxa natural de desemprego. Ou seja, para manter a inflação estável, os países terão que aceitar mais desemprego.

Essas forças também atuam para aumentar os juros estruturais nas principais economias do mundo. O envelhecimento da população resultaria numa redução da poupança na economia. E a menor disponibilidade de mão de obra levaria as empresas a investir mais em máquinas e novas tecnologias, demandando mais capitais.

Senna, que nos últimos anos destacou o papel dos fatores demográficos na queda dos juros nas economias avançadas, observou que, por coerência, a grande reversão demográfica deve ter o efeito inverso, aumentando os juros. “Faz todo o sentido esse prognóstico”, afirmou. “Teremos menos poupança e mais investimentos.”

Mas ele ponderou que há alguns fatores que podem, ao menos, atenuar essa alta dos juros. Um deles é que as novas tecnologias são menos intensivas em capital. Outro ponto é que pode haver uma elevação na idade mínima para aposentadoria, suavizando a queda esperada da poupança

O ponto que Senna considera mais controverso do livro é que a inflação tenderia a ser mais alta com essa virada na demografia e globalização. Ele argumentou que, hoje, os bancos centrais são institucionalmente mais fortes, e tenderiam a combater a alta de preços a despeito da pressão dos governos endividados em favor de juros mais baixos.

“Será mesmo que essa pressão toda vai mesmo tornar mais difícil para os bancos centrais continuarem agindo da forma como agem?”, questionou. “Talvez esse processo vá produzir mais desemprego, não mais inflação.”

Esse seria um possível desdobramento de uma eventual taxa natural de desemprego maior, embora Senna questione se de fato o poder de barganha dos trabalhadores vai se ampliar. Nas últimas décadas, os sindicatos se enfraqueceram não apenas devido à globalização, mas também às novas tecnologias – que tendem a ter importância no futuro.

“Existem mais dúvidas que certezas, são muitos fatores em jogo ao mesmo tempo”, concordou o economista Samuel Pessoa, no debate no IbreFGV.

Os próprios autores do livro, Goodhart e Pradhan, dedicam um capítulo a explorar o que pode estar errado no cenário deles. Um fator que pode mudar o jogo é se a queda na oferta de trabalho for compensada por ganhos de produtividade. Outra possibilidade é a globalização abrir uma nova fronteira, na Índia e na África, regiões do globo que ainda registram aumento da população.

O Japão pode ser uma espécie de mapa do futuro, porque sua população já envelheceu. Senna destacou que, embora com baixo crescimento, a renda per capita aumentou, o que é um lado positivo da história.

Mas o Japão, como destacado por Pessoa, é um caso muito especial, com uma baixa rede de proteção social para os idosos, por exemplo, que levam a um nível de poupança muito maior. O quanto pode se tirar de lição para o resto do mundo é uma dúvida.

Fonte: Por Alex Ribeiro — De São Paulo