Companhias desenham estratégias para a volta do trabalho presencial

Por Ana Luiza de Carvalho

Itaú Unibanco iniciou em setembro testes com a retomada do trabalho presencial para 20% dos funcionários — Foto: Silvia Zamboni/Valor
Itaú Unibanco iniciou em setembro testes com a retomada do trabalho presencial para 20% dos funcionários — Foto: Silvia Zamboni/Valor

Empresas de capital aberto começam a desenhar a estratégia para a volta do trabalho presencial, num cenário em que o avanço da variante delta da covid-19 mostra a importância da vacinação para proteger os funcionários. Segundo levantamento do Valor, cerca de 30% das companhias que compõem o Índice Bovespa, o principal da bolsa brasileira, dizem que a imunização é “recomendada e incentivada” entre as equipes e ressaltam que a vacinação está em níveis satisfatório. O restante não respondeu ou não informou a política adotada.

Na pesquisa feita entre os dias 30 de julho e 2 de setembro apenas a têxtil Cia. Hering já informou que pretende acompanhar a medida anunciada pela aérea Gol no fim do mês passado e condicionar a permanência na empresa à imunização.

“Não é caça às bruxas. Queremos nossa comunidade imunizada e saudável”, diz diretora de pessoas da Hering

O contágio acelerado da variante delta do coronavírus tem ampliado a pressão para que as companhias exijam vacinação, principalmente nos Estados Unidos, onde a rejeição aos imunizantes ainda é significativa.

Instituir a obrigatoriedade da vacina contra a covid-19, de acordo com Renata Bove, diretora de pessoas da Hering, foi um passo natural adotado após vários meses de conscientização e acompanhamento das cadernetas dos trabalhadores. A empresa já solicitava comprovante de vacinação e promovia campanhas de imunização, como no caso da vacina da gripe (vírus Influenza).

“Não é uma caça às bruxas, não queremos nenhum trabalhador demitido, ainda mais nesta crise. Queremos nossa comunidade totalmente imunizada e saudável”, afirmou ao Valor.

O funcionário tem que apresentar o cartão vacinal e, se estiver em falta, é encaminhado para atendimento com a equipe de psicologia. Em seguida, há um novo atendimento, com um médico do trabalho. Caso ainda assim não queira se vacinar, o empregado é afastado de suas atividades temporariamente e pode ser demitido.

Até o momento, de acordo com a Hering, não houve nenhuma demissão, mas três trabalhadores chegaram a ser suspensos. Mais de 70% dos funcionários já iniciaram o ciclo de imunização.

A CPFL também não descarta medidas mais incisivas no combate à pandemia. O pedido de comprovação “está sendo estudado”, diz o diretor de recursos humanos, Rodrigo Ronzella. Atualmente, a empresa de energia “incentiva e recomenda” a imunização aos trabalhadores.

Outras companhias, como a Eletrobras, não exigem vacinação, mas fazem campanhas para que os funcionários procurem os postos de saúde e notifiquem sua situação vacinal. Até 1º de setembro, a holding do setor elétrico, tinha 74% de imunizados em seu quadro funcional. A estatal não mencionou se o percentual se refere às pessoas que receberam a primeira dose ou se a fatia é de funcionários totalmente imunizados.

A Copel também não possui meta de imunização e incentiva a vacinação dos funcionários, que estariam “conscientes sobre a importância” da medida.

“O alto índice de empregados imunizados com a primeira dose, acima dos índices brasileiro e paranaense, confirma que os empregados da companhia estão conscientes sobre a importância da imunização contra a covid-19”, afirmou a Copel em nota. O percentual de trabalhadores protegidos não foi divulgado.

A resseguradora IRB Brasil afirma que “ainda não possui nenhuma medida de exigência da vacina” e também não solicita comprovantes.

O Itaú Unibanco pede a seus colaboradores que declarem o recebimento da primeira e da segunda doses da vacina. “Não temos decisão tomada sobre a exigência do comprovante de vacinação, o que não quer dizer que não possamos adotar a medida mais adiante”, diz.

O banco iniciou em setembro um teste com a retomada do trabalho presencial para 20% dos funcionários, nos modelos híbrido com escala, híbrido flexível e presencial, a depender do setor. Cerca de 11 mil funcionários participam do teste.

Um estudo da consultoria KPMG mostrou que cerca de metade das companhias brasileiras pretende retomar as atividades ainda neste ano. O percentual sofreu forte redução desde o primeiro semestre: na época, 66% das empresas pretendiam retomar as atividades presenciais em 2021.

O cenário de tranquilidade das empresas é diferente do enfrentado por grandes companhias americanas, que têm se deparado com uma resistência de parte da população em se vacinar.

Dados do Centro de Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos EUA apontam que, mesmo com a grande oferta de doses e decorridos nove meses de campanha, cerca de 64% da população americana tomou ao menos uma dose, e 54,5% já estão completamente imunizados. O percentual de brasileiros que recebeu ao menos a primeira dose já é maior que o dos americanos, cerca de 65%, com um ritmo de crescimento muito mais acelerado.

Várias das maiores companhias americanas discutem como abordar a vacinação entre seus funcionários. A Microsoft, que pretende reabrir todas as suas unidades a partir de 4 de outubro, exigirá a partir deste mês comprovante de vacinação.

A fabricante de processadores Intel recomenda a imunização e oferece até quatro horas de folga remunerada para que os funcionários possam se vacinar. Já a IBM montou postos de vacinação nas próprias instalações.

Entre as multinacionais que anunciaram restrições no exterior, nenhuma confirma a mesma medida em suas operações brasileiras. A Coca-Cola afirmou que os escritórios da companhia estão em trabalho remoto desde março de 2020 e “sem previsão de volta por causa da variante delta”.

O banco Goldman Sachs destacou que a vacina é exigida apenas nos Estados Unidos e que, no caso do Brasil, o banco está “testando os funcionários, seguindo a abordagem global”.

Na semana passada, essa pressão pela imunização ganhou mais um capítulo. O governo Joe Biden anunciou no dia 9 que os funcionários federais devem ser imunizados, sob risco de sofrerem sanções disciplinares. A regra também se aplica a trabalhadores de empresas com mais de 100 funcionários. Se não houver vacinação, as companhias devem fazer testes se

No Congresso brasileiro também tramitam projetos de lei sobre o tema. O mais antigo foi proposto pelo deputado federal Fausto Pinato (PP-SP). O projeto determina que os servidores públicos e comissionados das esferas municipal, estadual e federal se vacinem. O texto não foi pautado em nenhuma comissão até o momento.