Comparação com igual período do ano passado deve levar serviços, varejo e indústria a ter alta de até dois dígitos

Apesar da piora da pandemia, o desempenho dos principais setores da atividade econômica nos meses de março e abril (indústria, serviços e comércio) deve apresentar taxas positivas, na comparação interanual, frente a igual mês de 2020. Em alguns casos, até mesmo de dois dígitos. Isso ocorrerá não por causa do nível de atividade econômica, e sim graças a um efeito estatístico: esses foram os piores meses de atividade econômica no início da pandemia, o que provoca uma base de comparação muito depreciada.

A deterioração do cenário diante de mais medidas restritivas para conter o vírus ficará clara na série com ajuste sazonal – que compara o resultado em relação ao mês imediatamente anterior. O efeito estatístico também vai aparecer no dado do Produto Interno Bruto (PIB) na comparação do segundo trimestre ante o resultado de um ano antes.

Especialistas apontam que a retração da atividade nos indicadores de indústria, serviços e comércio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) será menos intensa que a observada no início da pandemia no país, já que há um menor grau de isolamento social agora e também uma adaptação melhor das empresas à pandemia, com expansão do e-commerce e outras soluções para minimizar a perda de demanda.

“A partir de março, teremos taxas positivas na comparação interanual em indicadores como serviços, indústria e varejo ampliado. É preciso ver com cautela esse crescimento, na verdade inflado pelo efeito estatístico. São informações conflitantes com o movimento na margem, de queda, devido às medidas de restrição de governos locais para conter a expansão do vírus”, afirma o economista da LCA Consultores Lucas Rocca.

A projeção da consultoria prevê, em março, alta de 9,8% da indústria geral ante igual mês de 2020 e queda de 2,9% frente fevereiro de 2020. O movimento também é observado, considerando as mesmas bases de comparação, nas estimativas da Ativa Investimentos (5,8% e -4,1%), MB Associados (8,3% e -3%) e Tendências Consultoria (7,7% e -5,3%).

Para o volume de serviços, a expectativa da LCA Consultores é de alta de 4,6% em relação a março de 2020 e recuo de 2,8% ante fevereiro. O varejo ampliado (inclui construção civil e automóveis) deve crescer 5,6% em relação a março de 2020, mas cair 12,4% na comparação com fevereiro. Lucas Rocca explica que a exceção nesse comportamento será no varejo restrito, em que as vendas de supermercados têm peso maior e tiveram forte alta no início da pandemia, com muita gente comprando a mais para fazer estoque em casa.

“Teremos uma pequena bagunça estatística, com números muito fortes no interanual e queda na margem”, diz o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, lembrando como exemplo que a produção de automóveis foi praticamente paralisada e que agora deve ter “crescimento estratosférico” em razão do efeito estatístico. Em abril de 2020, foram produzidos apenas 1.800 veículos, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), número ínfimo frente as 267 mil unidades de abril de 2019.

Economista-chefe da Ativa Investimentos, Étore Sanchez ressalta que os principais indicadores chegaram a “um abismo” no início da pandemia, o que provoca as taxas positivas na comparação com igual período do ano passado, mesmo com os processos de fechamento na indústria, no comércio e nos serviços ocorrido mais recentemente devido à piora da pandemia. “A dinâmica desses setores está interligada, responde por mais de 90% do PIB, uma coisa puxa a outra”, diz.

Na avaliação da economista Alessandra Ribeiro, diretora da Tendências Consultoria, percebe-se também influência da maior adaptação das empresas ao cenário da pandemia, além do efeito estatístico. “O que se viu em 2020 foi uma parada brusca. Agora, o isolamento foi menor e as empresas se adaptaram, com soluções de ecommerce e delivery mais azeitadas. Com novos processos, há alguma continuidade de demanda e oferta.”

Fonte: Por Lucianne Carneiro — Do Rio.