Empresa atribui decisão de novo reajuste ao câmbio acima de R$ 5,60, matérias-primas dolarizadas, alta do preço na China e demanda firme do insumo no mercado brasileiro

Com o dólar acima de R$ 5,60 e os preços elevados do aço no mercado externo, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), uma das maiores fabricantes do país, decidiu fazer novos reajustes na sua tabela a partir de 1º de abril. Será a terceira alta do ano – aumentos similares aos índice aplicados em janeiro e fevereiro. Os reajustes ficarão de 10%, para alguns tipos de aço, até 15% para aço longo (vergalhão). Folhas metálicas, usadas em embalagens, vão ter 11,25%.

A decisão, disse ao Valor Luiz Fernando Martinez, diretor executivo comercial, se deve a um conjunto de fatores – alta do aço na China, que serve de balizamento para o Brasil), real desvalorizado ante o dólar, preços das matérias-primas (minério de ferro, carvão e sucata, dolarizados) em patamar elevado e demanda firme no mercado brasileiro por bens fabricados com aço – automóveis, freezers, geladeiras etc.

Com a atual taxa de câmbio do país, mesmo com o novo reajustes, o prêmio do produto local em relação ao estrangeiro internado no país ficará entre 2% e 5% positivo, afirma o executivo. É um prêmio baixo. O dólar influi muito.

Ele exemplifica que o custo de minério e carvão na fabricação de uma tonelada de aço teve alta de 131%, em real, de janeiro de 2020 até o fim de fevereiro. “O minério valia US$ 94,15 em janeiro de 2020; chegou a US$ 172,75, enquanto o dólar variou de R$ 4,04 para R$ 5,45 nesse período”, informa. O carvão metalúrgico foi de US$ 110 para US$ 145 a tonelada. Assim, o peso das duas matérias-primas variou de R$ 879,23 para R$ 2.035,04 a tonelada.

Segundo Martinez, a tonelada da bobina a quente (material de referência) na China é negociada na faixa de US$ 760 a US$ 780 para exportação, embora as usinas chinesas estejam vendendo muito pouco ao exterior, priorizando o mercado doméstico. Até incentivo à exportação (tax rebate) foi retirado pelo governo chinês.

O cenário se agrava com as restrições impostas pelo governo à produção em regiões da China, como Tangshan, devido à questão de poluição no meio ambiente, o que deve perdurar até abril. Com isso, os preços da tonelada de bobina a quente e vergalhão tiveram aumento de US$ 62, informa o executivo da CSN. Isso, diz, impulsiona os preços globais.

A avaliação é que a demanda por aço no Basil está em alta em vários setores – automotivo (previsão de 25% na produção de carros e 15% nas vendas em 2021), eletrodomésticos, embalagens, caminhões, máquinas e implementos agrícolas (cerca de 15%) e também a construção civil, que continua em forte em vários segmentos (residencial, autoconstrução e galpões logísticos).

“O mercado no Brasil já se encontra em níveis de consumo de 2013/2014. A CSN está operando com capacidade plena de produção”, afirma Martinez. A taxa média de ocupação da capacidade das siderúrgicas no Brasil chegou a março acima de 71%, o maior índice desde antes da pandemia, segundo o Instituto Aço Brasil.

O diretor diz que abastecimento direto dos grandes consumidores de aço já está praticamente normalizado, mas admite faltas pontuais, conforme reclamações vindas da indústria de transformação. O gargalo, aponta, ainda se encontra na recomposição de estoques dos clientes. E pode levar até três meses para voltar ao que era antes.

Para Martinez, o Brasil não pode ser diferente do resto do mundo nesse novo ciclo das commodities. Há um desequilíbrio na oferta e demanda mundial. “A tonelada de aço bobina a quente já custa US$ 1.367 nos EUA e a zincada, US$ 1.691”, diz, citando como fonte a CRU, renomada consultoria de matéria-primas.

Fonte: Valor Econômico – Por Ivo Ribeiro