Maioria das 95 instituições consultadas prevê alta para 5,25% ao ano na reunião do Copom da próxima semana

Após abrir as portas para uma possível aceleração no ritmo de elevação da taxa básica de juros, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve optar por ser ainda mais agressivo no processo de normalização da Selic e aumentar a taxa em 1 ponto percentual, para 5,25% ao ano. Além de uma redução mais tempestiva dos estímulos monetários, boa parte dos agentes do mercado já avalia ser necessário levar o juro básico para o campo restritivo ainda neste ano para conter as pressões inflacionárias e impedir uma desancoragem maior das expectativas de inflação.

Em pesquisa conduzida pelo Valor com 95 instituições financeiras entre segunda-feira e ontem, 75 casas acreditam em uma elevação da Selic de 1 ponto percentual na reunião do Copom na próxima semana, enquanto 20 instituições projetam que o atual ritmo de ajuste – de 0,75 ponto – será mantido. Para o fim do ano, de 94 casas que responderam, 77 projetam a Selic em 7% ou mais e apenas 17 acreditam que a taxa terminará 2021

Para efeito comparativo, em pesquisa conduzida logo após a decisão do Copom de junho com 75 instituições, apenas cinco esperavam então que o ritmo de alta dos juros acelerasse para 1 ponto em agosto. Além disso, só oito casas já previam que os juros subiram para 7% ou mais neste ano.

De junho para cá, o mercado observou com atenção pontos que o próprio BC indicou que seriam cruciais para determinar o grau de ajuste na reunião de agosto: a dinâmica das expectativas de inflação do Boletim Focus; a inflação implícita precificada no mercado; e a evolução dos preços mais inerciais, na medida em que o setor de serviços se recupera.

Assim, o Valor também questionou os economistas sobre as projeções de inflação tanto para este ano quanto para 2022, ano que integra o horizonte da política monetária. Das 84 respostas recebidas, a mediana das projeções para o IPCA de 2021 está em 6,8%, enquanto o ponto médio das expectativas para a inflação de 2022 está em 3,8%.

O ponto de virada na expectativa para a reunião do Copom veio após o IPCA-15 de julho revelar uma dinâmica inflacionária mais negativa, especialmente no setor de serviços, o que ligou o sinal de alerta no mercado. Imediatamente, as apostas no mercado de opções digitais, na B3, passaram a indicar possibilidade majoritária de uma elevação de 1 ponto

“Dado que já houve a comunicação da intenção de acelerar, não entregar uma alta de 1 ponto agora seria visto como um fraco compromisso com a meta do ano que vem, já que o balanço de risco piorou com a surpresa inflacionária deste ano”, avalia a economista-chefe do Credit Suisse Brasil, Solange Srour, que espera que a Selic termine o ano em 7,25%.

Quanto à comunicação da autoridade monetária, a economista diz avaliar que o Copom não deveria ter indicado que uma normalização dos juros para o nível neutro era apropriada. “Na nossa opinião, o risco é alto de o BC ter que subir a Selic para um patamar restritivo. Achamos que o ideal neste próximo Copom é não sinalizar o nível terminal da Selic mais provável, e sim o compromisso inequívoco de buscar a meta de inflação.”

Avaliação semelhante é defendida pela economista-chefe da ARX Investimentos, Elisa Machado. “Tanto a ação quanto a comunicação precisam ser mais duras para que o BC consiga impedir que a inflação alta deste ano provoque uma deterioração das expectativas de 2022”, afirma. Ela nota que, em sua comunicação recente, a autoridade monetária tem se mostrado mais preocupada com a inflação, o que torna desejável um aumento de 1 ponto na Selic agora.

“Isso já está precificado pelo mercado. Seria só corroborar o movimento que o mercado já fez. E, além disso, o BC precisa deixar claro que o mandato dele é a inflação e que ele fará o que for preciso para cumprir, incluindo levar a taxa para um nível além do neutro”, avalia a economista, cuja projeção para a Selic no fim do ciclo é de 7,5%.

Com uma estimativa que também coloca o juro básico em 7,5% no fim deste ano, o economista-chefe da SulAmérica, Newton Rosa, diz que sua estimativa tem “um quê de restrição”, mas defende tanto uma aceleração do ritmo de elevação da Selic quanto colocar a Selic no campo contracionista.

“O BC não pode ficar atrás da curva. Ele tem de acelerar o passo e levar a Selic ao nível neutro logo”, diz o profissional. Já em relação à comunicação do Copom, Rosa diz acreditar que o comitê não deve derrubar a intenção de neutralizar os juros, já que isso reforçaria apostas ainda mais agressivas para os rumos da Selic em um cenário de crescimento baixo em 2022.

“Não podemos nos iludir com o PIB deste ano. Em 2022, teremos um crescimento de 2,5% no máximo e é um ano de eleição. Não tem razão para puxar o freio de mão agora, sob o risco de diminuir muito esse crescimento já limitado”, afirma Rosa.

Já o superintendente de pesquisa econômica do Santander, Maurício Oreng, acredita que o Copom deve abandonar a sinalização de levar a Selic ao nível neutro, uma vez que os modelos devem apontar para a necessidade de se fazer um movimento mais agressivo para fazer a inflação convergir para a meta. “A chance é maior de ele deixar o cenário em aberto, mas acredito que, se sinalizar algo, a probabilidade maior é de ele indicar outra alta de 1 ponto”, avalia.

Oreng nota que os núcleos de inflação têm rodado, na margem, na casa de 7%, o que sugere que as pressões tendem a se disseminar por algum tempo, enquanto os serviços tendem a subir com a reabertura da economia. “Esse espalhamento da inflação corrente sinaliza risco de persistência maior no futuro, o que justifica o racional da decisão de acelerar o passo da alta”.

Para Thaís Zara, economista sênior da LCA Consultories, a maior persistência da inflação e piora das medidas subjacentes correntes e prospectivas “apontam para uma intensificação do ritmo de elevação da Selic no curto prazo”. Ela, inclusive, acredita que é provável que o Copom opte por sinalizar outro aumento de 1 ponto na reunião de setembro e espera que o colegiado mantenha a indicação de que pretende levar a Selic para o nível neutro, embora espere menor ênfase nesse patamar.

Entre os que acreditam que uma aceleração no ritmo de alta não deveria ser efetuada está o economista-chefe da Reach Capital, Igor Barenboim, cuja justificativa está nas expectativas de inflação “praticamente estáveis” desde junho. Além disso, ele aponta que o IPCA-15, que veio com uma inflação de serviços mais alta em julho, não se deveu a serviços que dependem de salários, mas sim aos mais ligados a commodities.

Barenboim aponta, adicionalmente, o risco de acomodação do crescimento mundial, que se elevou muito desde junho. “Acho que o Copom deverá elevar o grau de vigília e dizer que acelerará se continuarem as pressões”, diz.

Vitor Carvalho, sócio da Laic, também defende um aumento de 0,75 ponto da Selic em agosto. Para ele, um alta maior mostraria ao mercado que o ritmo de aperto executado até agora “foi errado e não se traduziu em ancoragem de expectativas”, além de fazer o BC refém de outro aumento de igual magnitude em setembro.

Assim, Carvalho acredita que o Copom deve continuar o seu modus operandi de deixar sinalizados na comunicação os passos para a reunião seguinte, “sem se comprometer, entretanto, de maneira muito rígida, com a magnitude do próximo aperto.