Até mesmo projetos do Casa Verde e Amarela estão adotando a certificação com processos de redução do consumo de água e energia elétrica

Faria, da GBC: “Com a pandemia de covid-19, as pessoas estão prestando mais atenção ao dia a dia de suas moradias” — Foto: Silvia Zamboni/Valor

Em um cenário em que questões socioambientais e de governança (ESG) ganham cada vez mais espaço no discurso e na agenda das empresas, incorporadoras começam a buscar certificações também para projetos residenciais, movimento consolidado no segmento corporativo de alto padrão. Segundo incorporadoras ouvidas pelo Valor, não é possível vender os apartamentos com selo verde por preço mais elevado. Mas, à medida que as certificações residenciais ganharem escala, serão tendência sem volta, na avaliação do diretor executivo do Green Building Council Brasil (GBC), Felipe Faria.

A certificação GBC Condomínio avalia projetos e obras que possibilitam redução dos custos com água, energia, destinação dos resíduos para aterros e menor emissão de gases de efeito estufa. “Com a pandemia de covid-19, as pessoas estão prestando mais atenção ao dia a dia de suas moradias”, diz Faria.

A GBC Condomínio segue os parâmetros do selo Leed – cuja sigla pode ser traduzida como Liderança em Energia e Design Ambiental -, com adequações às normas técnicas nacionais. “As premissas do Leed foram adequadas a um padrão mais palatável para o mercado brasileiro”, diz Steven Nazario, diretor de construção e projetos da Tishman Speyer. As taxas cobradas pelo GBC variam de R$ 20 mil a R$ 50 mil por projeto. Pode haver custos adicionais com a contratação de consultorias e substituição de materiais utilizados.

A Stan busca a certificação para edifício de alto padrão que desenvolve na rua Arthur Ramos, no Jardim Paulistano, na cidade de São Paulo, com previsão de entrega no início de 2023. A Stan está investindo R$ 40 mil por unidade, no empreendimento, incluindo, além da certificação, “itens executivos, como instalação de tomadas para carros elétricos na garagem e especificação dos vidros para reduzir o gasto energético”, segundo o vice-presidente, Stefan Neuding. Os apartamentos tem tamanho de 300 m2 e 550 m2, com preços a partir de R$ 12 milhões.

A Stan pretende buscar a certificação também para os três lançamentos previstos para este ano, com Valor Geral de Vendas (VGV) que soma R$ 750 milhões. “Ainda não se trata de um fator decisório para a compra de um imóvel pelo cliente, mas estamos criando uma cultura”, diz Neuding, ressaltando que há muito mais receptividade para o tema do que há alguns anos. “A geração de 20 e poucos anos tem um olhar um pouco diferente”, conta Neuding.

Em 2008, a Stan decidiu que todos os seus empreendimentos seriam entregues
com consumo neutro de carbono. Para isso, ajustou processos produtivos e passou
a comprar créditos de carbono. “Fomos a primeira incorporadora a entregar
projetos com carbono neutro”, afirma Neuding. Os custos, nesse processo,
equivalem à fatia de 2% a 2,5% do VGV de cada empreendimento. Segundo o vicepresidente, a certificação do GCB complementa essa característica já oferecida.

A Tishman obteve o selo GBC Condomínio para a parcela residencial do empreendimento Alameda Jardins, em São Paulo. “Cada vez mais, fundos imobiliários estão olhando para essa questão. Fora do país, a Tishman já busca certificações para projetos residenciais”, conta o presidente da Tishman Brasil, Daniel Cherman. A incorporadora vai buscar a certificação para outros empreendimentos residenciais.

A curitibana AG7 foi a primeira incorporadora residencial a obter o selo GBC Condomínio para um projeto, o Ícaro, no segundo semestre de 2019. Para o sócio da AG7, Alfredo Gulim, é preciso desenvolver ativos sustentáveis que gerem valor para quem constrói e para quem usa o imóvel, de modo que, ao longo do tempo, o edifício “não perca a capacidade de estar atual”. “Em 15 anos, o investimento em um imóvel não sustentável vai perder valor”, diz o empresário.

A AG7 buscou para o empreendimento AGE 360, em construção, além do GBC Condomínio, a certificação americana Fitwel, de saúde e bem estar na moradia. “Quem estiver fora desse jogo, terá o equipamento depreciado”, afirma Gulim. Com foco na alta renda, a AG7 tem lançamentos de R$ 600 milhões previstos para os próximos dois anos.

Embora a busca de certificações seja mais comum para projetos de alto padrão, o presidente do GBC ressalta que se trata de certificação técnica, possível de ser obtida por empreendimentos de qualquer faixa de renda.

A incorporadora paranaense Valor Real certificou seu projeto Pinhais Park, localizado em São José dos Pinhais (PR) e enquadrado no programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, atual Casa Verde e Amarela. Entregue no ano passado, o empreendimento prevê economia de 25% no consumo de energia e de 30% no de água ao longo de sua vida útil. Houve redução de 80% do volume de resíduos gerados na obra, segundo o presidente do GBC.

“A certificação valida nossos critérios de sustentabilidade e nossa preocupação com a entrega de empreendimentos mais eficientes”, afirma o presidente da Valor Real, Antonio Lage. A incorporadora, que estima VGV de R$ 180 milhões a R$ 200 milhões, neste ano, vai buscar o selo GBC Condomínio também para o Park Royale, seu maior lançamento.

Se os investimentos para a obtenção do selo elevam o custo do projeto, a busca de mais eficiência nos canteiros de obras permite compensar parte dos gastos, tornando “a equação possível”, de acordo com Lage. “As empresas do futuro vão procurar gerar lucro de forma consciente e sustentável e não maximizá-lo independentemente das consequências”, afirma o presidente da Valor Real.

No segmento de urbanismo, o GBC tem sido procurado por loteadores da região Sul.

Fonte: Por Chiara Quintão — De São Paulo.