Especialistas veem cenário de colapso se aproximar e pregam medidas restritivas em âmbito nacional para frear alta de casos e de mortes por covid

O país caminha para um colapso generalizado do sistema de saúde e a perspectiva é que, em muito pouco tempo, se chegue à marca de 2 mil mortos por dia por covid-19, avaliam especialistas ouvidos pelo Valor. Essa escalada só seria evitada, defendem eles, se o governo federal assumisse de imediato a coordenação nacional do combate à crise sanitária, recomendando à população o isolamento social, o uso de máscaras e a adesão à vacinação em massa.

Embora afirmem que o ideal seria que o Executivo federal decretasse já uma medida muito próxima a um lockdown nacional, médicos e sanitaristas já não acreditam mais numa mudança de postura por parte do governo Jair Bolsonaro. E dizem que os próximos capítulos da pandemia no Brasil serão marcados por semanas muito difíceis.

Ontem, o Brasil bateu um novo e trágico recorde: 1.840 mortes por covid-19 em 24 horas, segundo dados compilados pelo consórcio de veículos de imprensa.

Uma amostra do que pode vir a ser um colapso generalizado na rede de saúde já é sentido em hospitais — públicos e privados — pelo país onde a ocupação de leitos de terapia intensiva se aproxima do limite.

Em menos de duas semanas, passou de 13 para 19 o número de unidades da federação com mais de 80% dos leitos de UTI ocupados por pacientes com covid-19, segundo boletim da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) com base no dia 2 de março. Sete Estados estão na zona de alerta intermediária, com 60% a 80% dos leitos ocupados. Apenas Sergipe, com 59% está fora da zona de alerta.

Os Estados com piores índices são Santa Catarina, com 99% dos leitos ocupados, Rondônia (97%), Goiás (95%), Pernambuco e Ceará (93%). Em São Paulo, a ocupação chegou a 74%.

Nas capitais, 20 das 27 estão em situação crítica diante da disparada de casos da doença. Porto Velho (100%), Curitiba e Goiânia (95%), Natal e Teresina (94%), Rio Branco e Campo Grande (93%), Manaus e Fortaleza (92%) e Brasília (91%) registram a pior situação. São Paulo tem 76% dos leitos de UTI ocupados.

“A sobrecarga nos sistemas de saúde é uma preocupação desde o início da pandemia e agora os dados são muito preocupantes”, diz o boletim da Fiocruz, que alerta que os números relativos às UTIs são apenas a “ponta do iceberg”.

Para abrandar as curvas de transmissão e dos óbitos, uma saída seria algo muito próximo de um lockdown nacional.

“O lockdown foi o que funcionou no mundo inteiro na primeira onda, desde o exemplo chinês, até o modelo alemão. E experiências na Europa também mostraram que relaxar de maneira desorganizada é perigoso. Vimos os exemplos de Portugal e da Alemanha. Assim como esses países evidenciaram que retomar o isolamento mais restritivo funciona. Então, já não havia dúvidas sobre a eficiência desse recurso do ponto de vista técnico”, diz Claudio Maierovitch, epidemiologista e médico sanitarista da Fundação Oswaldo Cruz.

Secretários de saúde defendem um toque de recolher a partir das 20h, que precisaria sera dotado pelo governo federal.

A avaliação é que em mesmo medidas restritivas locais como as adotadas ontem pelo governo de São Paulo serão suficientes para produzir efeito amplo de aplacar a pandemia no país.

“Não existe mais uma área protegida no país, como vimos na primeira onda da pandemia. Para completar, tivemos o início da circulação das variantes do coronavírus, não só de Manaus, mas as de outras procedências. Nós completamos uma tempestade perfeita já faz duas semanas, quando vimos pequenas e médias cidades entrarem em colapso”, ressalta Eliseu Alves Waldman, professor do Departamento de Epidemiologia da Escola de Saúde Pública da USP.

Para ele, a única solução seria um lockdown nacional acordado por lideranças de todas as esferas do poder. “Mas a verdade é que deveremos ter uma piora generalizada do quadro. E mesmo com as medidas adotadas agora, não sei se os efeitos virão rapidamente, dado ao ponto que chegamos”, afirma Waldman. “Estamos muito próximos de ver 2 mil mortos, talvez em menos de duas semanas.”

Fonte: Valor Econômico – Por Leila Souza Lima e Ana Conceição