Cenário adverso leva câmara do setor a cortar de 4% para 2,5% expansão do PIB do setor para este ano

Construção (CBIC) reduziu sua projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da construção neste ano de 4%, em janeiro, para 2,5%. De acordo com a entidade, pesaram para a revisão o desabastecimento e a alta nos preços dos insumos, além da falta de previsibilidade quanto à solução do problema.

A CBIC cita ainda dificuldades causadas pela instabilidade macroeconômica, desvalorização cambial, inflação em alta, avanço da pandemia e ritmo ainda lento de vacinação no país. Os dados, que serão divulgados hoje, foram antecipados ao Valor.

A previsão para o ano pode piorar ainda mais se confirmada a paralisação de obras da faixa 1 do Minha Casa, Minha Vida, atual Casa Verde e Amarela, alerta a entidade. Veto de R$ 1,5 bilhão ao Orçamento deste ano praticamente zerou os recursos voltados a essas unidades e a CBIC trabalha para reverter o corte.

Pelo segundo trimestre consecutivo, os empresários da construção civil apontaram que o maior problema enfrentado por eles é a falta ou o custo da matéria-prima. No primeiro trimestre, essa dificuldade foi assinalada por 57,1% dos participantes, de acordo com a Sondagem da Construção realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Foi o maior patamar já registrado para esse critério. No mesmo período de 2020, essa preocupação tinha sido citada por 8,1% dos participantes e, no último trimestre do ano, por 50,8%. A entidade chama atenção para o fato de o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), da Fundação Getulio Vargas (FGV), registrar variação de 12,2% em 12 meses até março, a maior para o período desde 2004.

“No ano passado, ninguém esperava e o mercado aqueceu. Mas lá por setembro começaram os aumentos abusivos, a falta de material”, explicou ao Valor o presidente da CBIC, José Carlos Martins. A expectativa, a partir de conversas com fornecedores, era que a situação se normalizasse até dezembro. “Na prática, no entanto, começou o ano e a situação ficou pior. É como se fosse um balde de água fria no setor.”

A avaliação é que as perspectivas eram positivas, mas o mercado se desarranjou. Esse “desânimo” já se reflete no mercado de trabalho, frisou. Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados ontem pelo Ministério da Economia, mostram que tanto em janeiro quanto em fevereiro foram criadas 44 mil vagas no setor da construção. Já no mês passado, foram 25 mil.

A pressão de custos, afirmou Martins, deve ser resolvida com um choque de oferta. Ou seja, abrindo, mesmo que temporariamente, o comércio exterior. Podem ser adotadas medidas como a redução de imposto de importação ou a facilitação de barreiras técnicas.

A CBIC está em contato com a Secretaria Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia e a Câmara de Comércio Exterior (Camex) para tratar do assunto. “Também já mandamos carta para vários ministérios, como do Desenvolvimento Regional e da Infraestrutura, para que nos ajudem na demanda perante o Ministério da Economia”, disse.

Dados da CBIC mostram que, no ano passado, as vendas cresceram 9,8% em relação a 2019, enquanto os lançamentos caíram 17,8%. O ano começou, portanto, com espaço para a atividade. “Vendemos mais do que esperávamos e não lançamos. Precisávamos fazer o que vendemos e repor o estoque do que está faltando”, explicou o presidente. O crescimento projetado para o ano em janeiro, de 4%, se confirmado, seria o maior desde 2013. A ideia é que o “choque de oferta devolva o ânimo ao setor”.

O menor ritmo da construção representa não só impacto econômico, mas também social, argumenta a CBIC. Por seu tamanho e capilaridade, o setor tem efeito de ser a “locomotiva ou o freio” da atividade, afirmou Martins. “Aqui dentro são 97 setores impactados”, acrescentou.

Além da questão dos insumos, outras dificuldades relatadas por empresários do setor são carga tributária (24,7%), demanda interna insuficiente (22,4%), burocracia excessiva (21,5%) e inadimplência dos clientes (19,0%).

Fonte: Por Mariana Ribeiro — De Brasília, Valor Econômico.

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