Quando o assunto é a idade do profissional, é preciso levar em consideração a postura da empresa sobre etarismo e a postura da pessoa que já assoprou muitas velinhas no bolo de aniversário

Por Sofia Esteves

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Marcelo Almeida/VOCÊ RH

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), jovem é quem tem entre 15 e 24 anos. Já o Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea) amplia essa faixa etária até 29 anos — e há instituições de pesquisa que vão incluir também
as pessoas com 30 anos. Para o dicionário, jovem é aquele que está no período de vida entre a infância e a idade
adulta. Mas, veja bem, existe uma segunda definição: que ou aquele que apresenta certa graça e vigor característico da
juventude. É com essa que eu fico.


Não por uma negação ou crise de idade, mas porque, de alguma forma, a juventude, para mim, tem muito a ver com o
estado de espírito. Costumo dizer que meu grande diferencial competitivo é que sou jovem há muito, muito, muito mais
tempo. Este ano, quando completei 60 anos, essa afirmação continua sendo verdadeira e sabe por quê? Mesmo com o
RG indicando que estou muito longe da faixa etária estabelecida pela OMS ou pelo Ipea, meu jeito de ser ainda é o
daquela jovem Sofia que sempre tinha um “por quê?” na ponta da língua. E isso, para mim, é fundamental para todos
aqueles que buscam não envelhecer no mercado de trabalho.

Recebo muitas perguntas sobre a carreira depois dos 40, 50 e 60 anos e acho que, quando o assunto é a idade do
profissional, existem duas coisas a serem levadas em consideração. Uma está relacionada a postura da empresa e o
combate efetivo ao etarismo (termo usado para o preconceito baseado na idade), e a outra tem a ver com a postura da
pessoa que já assoprou muitas velinhas no bolo de aniversário.


Não quero dizer, com isso, que estas pessoas são culpadas pela alta no desemprego de trabalhadores mais velhos
registrada durante a pandemia, que se elas agissem diferente isso não teria acontecido ou que não existe uma barreira
contra os 40+ que precisa ser superada. Quando falo na postura dos profissionais acima dessa idade, quero, na
verdade, resgatar a autoestima e a moral de quem acha que já passou do ponto, que alcançou seu auge e agora é
ladeira abaixo. Isso não é verdade!


Se parte da definição de juventude tem a ver com as características marcantes dessa fase, então todos nós podemos
continuar neste grupo de certa forma, independentemente da passagem do tempo. Pensando nisso, uma dica que dou
para não envelhecer neste mercado em constante transformação é manter-se curioso sempre.

À medida que os anos se passam, é comum acharmos que, como já vivemos muita coisa, sabemos de tudo.
Confundimos experiência com detenção da verdade absoluta e esse é um erro extremamente perigoso. É a dúvida que
nos leva a investigar novas possibilidades, caminhar por trilhas diferentes, questionar nossas verdades, tentar olhar por
outros ângulos e buscar conhecimento sempre. E essa é justamente a segunda dica: devemos aprender a vida toda!


O aprendizado não é um processo com um fim. Não existe um ponto de chegada para o conhecimento, um momento
em que cruzamos a linha final e encerramos a maratona do saber — e que bom que é assim!


Que bom que podemos continuar a nos maravilhar com as descobertas, a sentir aquele prazer de aprender algo, a
atualizar nosso conhecimento e a desenvolver nossas competências continuamente. Mais do que isso, fico feliz e
entusiasmada com a possibilidade de unir minha larga experiência do passado com as promessas de saber do futuro. É
esse repertório amplo que nos traz uma vantagem competitiva enorme, mas para a bagagem de conteúdo ficar mais
pesada, precisamos de uma postura ativa em relação ao ato de aprender, o que requer humildade.


Ser humilde é fundamental para continuar atualizado, porque é essa característica que permite virarmos para um
colega, às vezes até mais novo que nós, e dizer: “não sei, me explica?”. Não tenha medo ou vergonha de admitir que
não entende muito bem de algo, que não domina um assunto e que precisa estudar melhor o tema. Às vezes, não
admitimos para os outros que desconhecemos algo por medo do julgamento. Pior do que isso é quando não admitimos
para nós mesmos e, assim, nos fechamos para a possibilidade de aprender.


A ignorância maior não é a falta de conhecimento, mas a postura de quem acha que não precisa dele. Por isso, para
quem deseja conservar o espírito jovem, meus conselhos são: manter viva a curiosidade, entender o conhecimento
como uma jornada sem fim e praticar a humildade de fazer perguntas. É essa a fonte da juventude. Mate sua sede nela!