Se todas as ofertas foram fechadas, quadrimestre terminará com 29 novas empresas e um volume de R$ 45,8 bi

Apesar do momento de instabilidade no mercado, os bancos de investimento lançaram 15 ofertas públicas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês) somente na janela de abril. Desse total, 12 estão em andamento e podem movimentar R$ 20,5 bilhões, considerando-se a oferta base, sem lotes extras, e o ponto médio do intervalo de preço sugerido. Outras duas já foram finalizadas – a rede de hospitais e laboratórios Dasa fez um “re-IPO” de R$ 3,8 bilhões e a Allied, de tecnologia, levantou R$ 180 milhões. Com a queda de braço a favor do investidor, ambas foram forçadas a vender as ações por um valor inferior ao que pretendiam. Já a LG Informática interrompeu a operação no meio do caminho.

Não é possível saber de antemão se todas as operações na rua serão concluídas, nem a que preço. Mas, pelo que está no papel até aqui, os IPOs em abril poderão alcançar R$ 24,5 bilhões, valor maior do que o do primeiro trimestre do ano, quando 15 ofertas (12 delas somente em fevereiro) movimentaram R$ 21,3 bilhões.

As operações em andamento têm potencial ainda para superar a quantidade de IPOs realizados em todo o ano passado, quando a bolsa recebeu 27 novas empresas, que levantaram R$ 44,5 bilhões. Os dados são da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Em conversa com gestores de recursos que analisam essas operações, o Valor identificou interesse maior por quatro empresas: a Viveo, distribuidora de medicamentos e produtos hospitalares; a rede hospitalar Mater Dei; a GPS, de soluções de segurança; e a plataforma de comércio eletrônico Infracommerce. Ainda assim, não há consenso – muita gente gostou dos negócios, mas considera os preços superavaliados.

Viveo e Mater Dei precificam suas ofertas no dia 14. As duas, de acordo com informações de mercado, já estão com demanda suficiente para concretizar a operação – ambas adiaram a precificação em função dos feriados antecipados pela pandemia e, no caso da Viveo, também por conta alterações no prospecto.

Viveo é o novo nome da CM Hospitalar e tem como acionistas os empresários Carlos Mafra e Cleber Ribeiro, e a família Bueno, criadora da Amil e dona da Dasa. A empresa busca R$ 2 bilhões e convenceu investidores com a tese de consolidação no negócio de distribuição.

O Mater Dei é uma rede de hospitais nascida em Belo Horizonte, que quer R$ 1,9 bilhão em sua oferta. Chamou a atenção dos investidores o fato de ter médicos experientes no comando e posição de dominância muito grande em BH. A tese é de aquisições, além do início da operação, em 2022, de um hospital em Salvador.

Ainda nesta semana, dia 15, após dois adiamentos, a Blau Farmacêutica, que produz medicamentos de alta complexidade e hospitalares essenciais, além de produtos biotecnológicos e sintéticos, tenta acertar sua ida à bolsa. Semana passada, a conversa no mercado era de que a demanda estava fraca. Os gestores estavam recebendo ligações dos bancos pedindo para colocar ordens e também sugerindo uma conversa adicional com o controlador, Marcelo Han.

“Quando a oferta está demandada, o banco não liga para ninguém. Ele, inclusive, torce para ninguém mais colocar ordem. Se tem reserva demais, o rateio entre os investidores acaba sendo elevado, ninguém recebe nem perto da quantidade desejada de ações e vai dar dor de cabeça para os coordenadores”, resume um gestor.

Sexta-feira, segundo fontes, os coordenadores sondaram a demanda dos investidores para os papéis a R$ 40,14 – isso equivale a um desconto de 10% em relação ao piso do intervalo de preço sugerido para o papel. Na quinta, a Blau já havia reduzido o tamanho da operação em 40%, para R$ 1,3 bilhão. A empresa cancelou a parte secundária, em que o dinheiro vai para o bolso do acionista, e reduziu em 13% a primária, em que os recursos vão para o caixa.

Para as operações a partir da semana que vem, a percepção de mercado sobre demanda ainda é pequena. A GPS deverá ter seu preço fechado no dia 20. Criada em 1962, ela se define como prestadora de serviços integrados, que incluem soluções de facilities, segurança, logística indoor, serviços de engenharia e manutenção industrial. Tem mais de 2.700 clientes em 22 estados e mais de 100 mil funcionários. Em 2020, a receita ficou próxima a R$ 5 bilhões. Desde 2007, já fez 30 aquisições. A oferta pode somar R$ 2,6 bilhões, metade secundária, metade primária. Os recursos que ficarão na empresa irão para aquisições, pagamento de dividendos aos acionistas e fortalecimento da capacidade financeira.

No mesmo dia 20, o Hospital Care Caledônia, um investimento do Crescera Capital, dos empresários Elie Horn e Julio Bozano, pretende concluir sua operação. E a última semana do mês concentrará oito IPOs. A oferta da empresa de energia renovável Rio Alto será dia 26. Para dia 27 estão previstos Vittia (fertilizantes), Boa Safra (sementes), Infracommerce e Caixa Seguridade. E a janela termina dia 28, com outra rede hospitalar, a Kora, e o ModalMais (Banco Modal).

Apesar de algumas ofertas terem encontrado dificuldades e investidores bastante seletivos nos últimos dias, os bancos continuam apostando na viabilidade delas. O que eles fizeram, apurou o Valor, foi ajustar a operação antes do lançamento. Como exemplos, a Kora saiu com um preço quase 30% inferior ao pretendido nas conversas pré-IPO, dizem fontes. E a Rio Alto só foi iniciada porque conta com um pedaço já ancorado. A confiança dos bancos na melhora do mercado é tanta que trouxeram até mesmo uma estatal, a Caixa, que tem a maior oferta da temporada.

As duas operações concluídas contaram com redução de preço e suporte do controlador. Em casos assim, espalham no mercado duas versões: o controlador ajudou a completar a operação porque não havia demanda. Ou ele acompanhou porque vendeu barato e quis evitar ser diluído em preço descontado. Na Dasa, a redução superou 15% a sinalização inicial era de que a empresa não venderia a ação por menos de R$ 70, mas ela saiu a R$ 58. Os recursos vão para pagar aquisições, uma vez que a empresa estava alavancada. A família Bueno colocou R$ 500 milhões.

A Allied, informou o Pipeline, site de negócios do Valor, teve ajuda da gestora Advent, controladora; e da família Radomysler, fundadora. A empresa levantou R$ 180 milhões, vendendo a ação a R$ 18, valor 20% inferior ao centro da faixa de preço inicialmente sugerida.

Das 15 de ofertas lançadas, duas foram destinadas apenas a investidores qualificados e 13 seguiram a Instrução CVM 400, que inclui o público de varejo. Essas 13 correspondem a 28% das 47 operações em análise na CVM e que poderiam ter acessado essa janela – ninguém esperava essa quantidade de IPOs ao mesmo tempo, pois os investidores, hoje, não teriam capacidade de olhar tantas ofertas.

Nove companhias adiaram a operação por 60 dias, conforme o artigo 10 da ICVM 400. Após esse período, voltarão a correr os prazos de análise da autarquia, como se novo pedido de registro tivesse sido apresentado. Outras 26 permanecem em análise, sem interrupção. E há um número grande de empresas que já ventilaram o desejo de ir para a bolsa, mas ainda não oficializaram o processo.

Operações ainda poderão ser lançadas para fechar entre 3 e 11 de maio. Mas aí estarão no “blackout period”, fase de 16 dias que antecede o início da temporada de divulgação de balanços do primeiro trimestre de 2021. Se o mercado melhorar e alguma empresa sair com oferta terá de atestar ao mercado que não houve mudança material em sua situação econômico-financeira e patrimonial em relação a 2020, acrescentando dados financeiros e operacionais não auditados no prospecto.

Fonte: Jornalista Ana Paula Ragazzi — De São Paulo.