Para coordenador da Economia Aplicada do Ibre/FGV, faria mais sentido autoridade monetária ter parado de cortar taxa básica de juros em patamar mais perto de 3% ao ano.

O Banco Central não deveria ter ido tão longe no processo de redução dos juros e faria mais sentido a autoridade monetária ter parado de cortar a Selic em um patamar perto de 3% ao ano, mas não é por isso que a inflação estourou a meta em 2020. A avaliação é de Armando Castelar, coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), convidado da Live do Valor nesta terça-feira.

No ano passado, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). o indicador oficial de inflação do país, aumentou 4,52% em boa parte devido à inflação de alimentos, que foi quase de 19% no período, observou Castelar. A meta para IPCA era de 4%. “Não vejo que 2% [de Selic] tenha causado alta da inflação. Do ponto de vista de preocupação com a inflação, o Banco Central foi bem”, afirmou.

No meio do ano, lembrou, o consenso de mercado previsto no boletim Focus apontava que a inflação seria menor do que 2% em 2020. “A inflação alta veio como uma surpresa muito grande. Não esperava essa alta, que chegou nesse patamar independentemente de preços administrados terem tido um comportamento bom”, acrescentou o coordenador.

Daqui para frente, no entanto, a inflação mais elevada é um tema que vai entrar mais no radar, avaliou Castelar, para quem o IPCA deve pode subir mais do que 3,5% ao ano, ou mesmo mais do que 3,75%, que é a meta de inflação a ser perseguida pelo BC para 2021. “A inflação vai ser muito mais presente no debate econômico em 2021 do que foi em 2020”.

Na medida acumulada em 12 meses, o IPCA deve superar 6% em meados deste ano, o que “obviamente vai gerar ruídos”, apontou Castelar. Uma preocupação, segundo ele, é que a inflação atinja esses 6% justamente num momento em que a economia esteja se recuperando, o que pode afetar as expectativas do mercado e fazer com que índice oficial termine o ano acima dos 3,5% previstos pela Focus.

Para o economista, o “forward guidance” (orientação futura) não deve ser retirado na decisão de amanhã do Comitê de Política Monetária (Copom), mas espera-se que, com a surpresa para cima com os resultados do IPCA nos últimos três meses, o BC faça uso de uma comunicação em tom um pouco mais favorável ao aperto monetário. “O Banco Central tem que começar a reagir porque a inflação surpreendeu em outubro, novembro e dezembro e superou a meta do ano”, afirmou.

Sobre as perspectivas para a política monetária, considerando que o BC já anunciou que está levando 2022 em consideração em seus cenários e as expectativas para o próximo ano já estão muito perto da meta, não há mais folga para manter taxas muito expansionistas, defendeu. “Acho que o BC vai tender a ser conservador. Vejo algo na faixa de 3%; 3,25% [de Selic] como mais provável no fim do ano”, disse

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Fonte: Valor Econômico – Por Arícia Martins