Em sua primeira alta de juros em mais de cinco anos, o Copom surpreendeu boa parte dos analistas de mercado ao adotar um tom bem mais duro que o esperado

Em sua primeira alta de juros em mais de cinco anos, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central surpreendeu boa parte dos analistas de mercado ao adotar um tom bem mais duro que o esperado. Além de anunciar alta de 0,75 ponto percentual da Selic, que subiu para 2,75%, o colegiado já contratou novo ajuste do mesmo tamanho para a próxima reunião, em um movimento que deve ajudar a ancorar as expectativas de inflação e pode até trazer efeitos positivos para o câmbio no curto prazo.

Na avaliação de Fabio Akira, economista-chefe da BlueLine, o Copom deu duas decisões em uma, com objetivo de evitar o contágio de expectativas de inflação mais longas. “O Copom decidiu reduzir o grau de estímulo e sinalizar uma antecipação na carga de juros para minimizar o risco de superar o teto da meta [em 2021] e evitar o contágio das expectativas de 2022”, diz o economista, que está reavaliando seu cenário para o rumo dos juros. “Estou achando que o Copom vai caminhar mais rápido para 5%, depois pode fazer uma pausa para observar o comportamento da inflação”, acrescenta.

Com essa nova postura da instituição, os analistas afirmam que o plano de voo está mais claro agora. “O BC optou em fazer um ajuste mais rápido. Na minha visão, [o comunicado] está dizendo que em maio planeja subir para 3,5% e sugere que chegar a 4,5% no fim do ano estaria consistente com o foco da política monetária agora que é 2022”, afirma Carlos Kawall, diretor do ASA Investments e ex-secretário do Tesouro.

Para Kawall, a autoridade monetária deixou clara a intenção de acelerar o ritmo do aperto, mas também apontou para uma normalização parcial, ou seja, que não pretende levar o juro para o patamar neutro nesse primeiro momento. No entanto, ele entende que essa é uma sinalização que poderia ser retirada. “Achei que podia também tirar. Ficar mais dependente de dados e poder escolher entre fazer uma normalização parcial ou, eventualmente, ter um ciclo mais intenso que leve a Selic ao juro neutro em torno de 6%.”

A estratégia mais dura do Copom para os rumos da Selic se respalda numa série de mudanças em sua visão sobre o cenário para a inflação: ambiente mais desafiador para emergentes, expectativa de retomada da atividade com o processo de vacinação, dados mais altos de inflação corrente e novas projeções para os índices de preços.

No entanto, a nova postura da autoridade também vai além dos fundamentos econômicos, diz o economista-chefe da Daycoval Asset, Rafael Cardoso. “Pode ser que o BC esteja fazendo o ajuste rápido demais do lado da inflação. Mas, quando se adota uma visão mais ampla, com possível perda de credibilidade, se fosse leniente demais com a inflação ou a questão do limite inferior da taxa de juros, faz sentido a decisão”, diz.

O limite inferior da taxa de juros ao qual Cardoso se refere diz respeito aos efeitos adversos causados em demais ativos financeiros por uma baixa muito acentuada da taxa básica de juros. “O BC pode estar reconhecendo que o remédio virou veneno. Por isso, ele reduz a dose para voltar a ser remédio”, acrescenta Cardoso.

Agora, a expectativa de boa parte dos analistas é que a estratégia do Copom também tenha efeitos positivo em condições financeiras. O economista Silvio Campos Neto, da Tendências, acredita que a decisão deve ajudar a conter a alta do dólar. “Ainda que o BC não tenha tomado uma decisão por causa do câmbio, a surpresa com uma alta acima do esperado deve tirar a pressão no mercado de câmbio”, diz.

Essa também é a avaliação de Luciano Sobral, da Neo Investimentos. Para ele, a alta maior da Selic ajuda a encarecer as apostas contra o real. “Todo mundo vai estar de olho no comportamento do câmbio. O que pode mudar significativamente a expectativa de inflação este ano é o dólar”, afirma.

Para Akira, da BlueLine, o mercado deve receber bem a decisão do BC, com ajuste relevante nas taxas mais curtas dos contratos de DI. “O mercado de juros já vinha antecipando um risco de uma alta maior que 0,50 ponto, mas não de duas de 0,75 ponto. Por isso, devemos ver um ajuste na curva curta de juros. E dentro dessa leitura de que o Copom fez um ‘frontload’ visando manter expectativas ancoradas, a curva longa não deve sofrer tanto”, explica o profissional.

O economista-chefe da JGP, Fernando Rocha, também espera reação positiva nesta quinta porque o BC acabou com “alguma dúvida que estava sendo alimentada” com a meta de inflação. “O Copom falhou um pouco na comunicação desde janeiro. Publicou uma ata discutindo a possibilidade de altas da Selic, mas depois acabou voltando atrás em algumas comunicações. Não parecia muito preocupado com a inflação a ponto de avalizar ajuste rápido [como ocorreu]. O mercado ficou meio na dúvida.”

Ainda assim, existe a avaliação de que a subida dos juros sozinha não vai resolver a questão da alta do dólar, porque a taxa de câmbio reflete o alto nível de incertezas no cenário doméstico, que inclui o risco fiscal e a evolução da pandemia. “O BC parece acreditar que fazendo isso [alta acelerada dos juros], o choque no câmbio vai se reduzir de forma que as pressões na inflação também vão diminuir. Se o BC faz isso, mas o câmbio segue pressionado, ele pode ter de ajustar mais a Selic”, diz Cardoso, da Daycoval.

Fonte: Valor Econômico – Por Sérgio Tauhata