Percepção mexeu com juros futuros e derrubou dólar para R$ 5,326

O tom mais duro adotado pelo Banco Central na ata da reunião de semana passada do Comitê de Política Monetária (Copom) surpreendeu analistas e promoveu diversas revisões de cenário para os rumos da Selic neste ano. Diversos participantes do mercado anteciparam projeções para o início do ciclo de elevações do juro básico e a reunião de março do colegiado entrou de vez no jogo.

Instituições como Itaú Unibanco, Bank of America e Credit Suisse já esperam elevação do juro básico na reunião de 17 de março, em um cenário que encontrou apoio nos juros futuros. No encerramento dos negócios de ontem, o mercado elevou a chance de aumento de 0,50 ponto percentual na taxa Selic em março de 61% para 76%, enquanto a probabilidade de alta de 0,25 ponto caiu para 24%.

Para o Itaú Unibanco, a ata mostra que os dirigentes “praticamente se comprometem com uma elevação em março” diante da revelação de que alguns integrantes consideraram um aumento da Selic já em janeiro.

Embora tenha antecipado o início do ciclo, a instituição manteve inalterada em 3,5% a projeção para a Selic no fim de 2021. Conforme indicado, “o ritmo de elevação dependerá da evolução da atividade, da inflação e da política fiscal”, diz a equipe chefiada pelo ex-diretor do BC Mario Mesquita.

O diretor de pesquisa econômica para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, também manteve inalterada sua estimativa para a Selic em dezembro em 3,5% e apontou que, diante da linguagem mais dura, não é possível descartar alta em março. “Seria prudente que o Copom normalizasse a política um pouco mais cedo e mais rápido”, diz.

A possibilidade de antecipação do ciclo de normalização foi o principal fator a derrubar tanto o dólar quanto os juros de longo prazo. No fechamento, a taxa do DI para janeiro de 2027 caiu de 7,47% para 7,34% na B3, enquanto o dólar cedeu 3,39%, para R$ 5,3258.

Na visão dos economistas Thiago Machado e Fernando Sedano, do Morgan Stanley, são os temores fiscais que criam risco altista para as expectativas de inflação e podem desencadear alta de juros antes do esperado. Ao avaliarem a ata, eles apontam que o comitê irá monitorar a dinâmica da covid-19 no país, a atividade econômica e a política fiscal para decidir sobre o momento do aperto monetário.

“Suspeitamos que o último deles é o mais importante, com foco particular nas discussões sobre o Orçamento de 2021 em fevereiro”, afirmam. O Morgan Stanley já havia revisado o cenário, no fim da semana passada, para uma Selic em 3,5% em dezembro, em um ciclo que deve ter início em maio.

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, também vê a autoridade monetária em “compasso de espera” em relação ao desfecho das eleições no Congresso e ao risco fiscal, manifestado na possível volta do auxílio emergencial. Para ele, uma deterioração concreta do cenário fiscal faria o Copom antecipar o início do ciclo de aperto já para março.

“Pode ser colocado nesses termos: é um gatilho fiscal. Uma piora nesse cenário forçaria uma elevação da Selic”, sustenta Vale. “Não quer dizer que a manutenção do teto, por exemplo, impediria uma alta de juros neste ano, porque, pelos modelos do BC, é necessário um juro de 3,25% para manter a inflação na meta central em 2021 e de 4,75% em 2022”, aponta. Atualmente, a MB Associados vê a Selic a 3,5% no fim de 2021, com elevações começando em junho, mas Vale analisa que o seu cenário-base deverá ser revisado após os sinais do BC e os gestos do Congresso no sentido de fazer retornar o auxílio – a sua nova projeção pode a Selic em 4% ao fim do ano.

O Bank of America compartilha da mesma projeção, mas passou a esperar alta de 0,50 ponto percentual já em março. Já o Credit Suisse manteve a estimativa de juro a 4,5% no fim do ano, mas também adiantaram o início do ciclo para março. O Barclays, por sua vez, revisou de 3,75% para 4,00% sua projeção para dezembro, mas adiantou a primeira alta para maio.

Com projeção de IPCA em 3,7% no fim deste ano, a economista-chefe da Reag Investimentos, Simone Pasianotto, também vê alta da Selic já em março, movimento que a levaria a 3,50% em dezembro. Ele aponta ainda para um tom bastante realista do Copom em relação às pressões inflacionárias recentes, mas ressalta que o comitê poderia ter feito dado essa guinada de comunicação já o último encontro. “Vínhamos observando uma pitada de pressão inflacionária desde novembro, com os preços de commodities, câmbio e aumento da demanda. Acredito que o comitê demorou muito para retirar o ‘forward guidance’ da comunicação. Poderiam tê-lo feito em dezembro, quando o cenário atual já estava consolidado”, afirma.

A expectativa de uma normalização mais rápida também teve forte efeito sobre o câmbio ontem. No entanto, para Ilya Gofshteyn, estrategista do Standard Chartered, a recomposição da Selic ainda não parece suficiente, pelo menos no curto prazo, para tornar a moeda brasileira novamente atrativa. “O BC surpreendeu com sua postura recente. No entanto, seria necessário uma alta superior a 225 pontos-base para superar o peso mexicano – a moeda regional com maior diferencial de juros. Ao mesmo tempo, vulnerabilidades fiscais permanecerão agudas, prejudicando o apetite do investidor”, diz Gofshteyn. “Assim, acredito que o real deve manter uma performance abaixo da média no primeiro semestre, principalmente se levarmos em conta a rentabilidade ajustada pela volatilidade.” 

Fonte: Valor Econômico – Por Victor Rezende, Marcelo Osakabe e Felipe Saturnino