Criador de casas e prédios de alto padrão revela desejo de criar imóveis populares

— Foto: Lula

Não são os tons do mar, a cor da areia ou os contornos da orla. Para o arquiteto paulistano Arthur Casas, de 59 anos, o que sustenta a beleza das praias brasileiras é a Mata Atlântica. Parte dela é emoldurada pelos janelões do escritório que ele montou – bem antes da pandemia, registre-se – na casa que projetou e construiu em Iporanga, no Guarujá, litoral sul de São Paulo. O cômodo tem 3 m de largura por 3 m de comprimento, paredes pintadas de branco e chão de madeira, o mesmo material que reveste a fachada do imóvel, de meados de 2005.

É onde ele mais gosta de tirar seus projetos do papel – literalmente. Autodefinido como “um arquiteto analógico”, Casas não domina o AutoCAD, o software mais utilizado pelos profissionais da área, e se satisfaz com a lapiseira e aquela tradicional prancheta inclinada – a digitalização dos projetos fica a cargo de sua equipe, que soma 31 arquitetos. “Gosto de tranquilidade para criar, que nem sempre consigo ter em São Paulo”, afirma.

Desde que o novo coronavírus se instalou no país, é no refúgio litorâneo que ele tem passado boa parte de seus dias. O motivo ele revela logo no início deste “À Mesa com o Valor”. “Em março e abril do ano passado, não apareceu nenhum cliente novo”, conta ele, desde sempre assentado no mercado de luxo. “Mas depois veio uma enxurrada que fez com que meu escritório crescesse 30% no ano passado.”

Arthur Casas: “Hoje todo mundo quer ter um espaço fechado para trabalhar dentro de casa” — Foto: Silvia Zamboni/Valor

O fenômeno, supõe, se explica pela queda da taxa básica de juros, hoje de 2,75%, e pela incontrolável vontade que muita gente sentiu na quarentena de reformar a própria casa ou adquirir uma segunda, em meio à natureza. “Honestamente, acho muito esquisito. Onde estava essa grana toda?”, questiona. “Não condiz com a realidade do Brasil, onde hotéis e restaurantes, por exemplo, estão quebrando. Mas a verdade é que a minha área não só não foi afetada pela pandemia, como foi beneficiada por ela. Parece loucura, mas é o que é.”

Ele recebe nossa equipe na sede de seu escritório, cujo nome oficial é Studio Arthur Casas. É um imóvel de dois andares ao mesmo tempo fácil e difícil de achar. Fica na mesma rua que ladeia o Estádio do Pacaembu. Mas está quase inteiramente camuflado pela vegetação da praça vizinha, cuja manutenção está a cargo de Casas. Adquirido há 17 anos, cinco anos depois da fundação do escritório, o imóvel foi totalmente reformado – boa parte das paredes externas foi substituída por painéis de vidro, que aproximam as áreas internas do sofisticado paisagismo ao redor.

A sala dele foi decorada só com móveis de sua autoria. Numa ponta fica a escrivaninha, alinhada a uma parede na qual a artista plástica Chiara Banfi elaborou um painel. “Ela veio produzi-lo ouvindo um walkman, para você ver a idade da obra”, informa o dono da sala. Uma meia parede, na outra ponta, esconde uma prancheta igual à da casa em Iporanga. Diversas daquelas miniaturas de carros clássicos, além de livros de arte e arquitetura, foram estacionadas numa estante robusta. O sofá acomoda três pessoas e a mesa de reuniões tem capacidade para seis. Eis o cenário da entrevista ao Valor, transcorrida ao longo de um almoço em uma quarta-feira recente, na qual o imóvel, por motivos óbvios, estava praticamente vazio.

Casas, que teve covid em janeiro, diz que está mais melancólico pelo recrudescimento da pandemia — Foto: Silvia Zamboni/Valor

Sobre a mesa nos esperam três travessas de plástico recheadas de sushis e sashimis, uma porção de edamame e outra de shimeji na manteiga. Foram entregues pelo restaurante Sushi Papaia da praça Vilaboim, em Higienópolis, a 800 m de distância. Da cozinha do escritório vieram as latas de Coca-Cola Zero, a água sem gás – servida em uma engenhosa jarra de alumínio projetada pelo entrevistado – e os cafés que fecharam a refeição. “Prometi que só ia comer sashimi, então isso aqui é meu”, declara, se apossando da travessa mais próxima, a única sem sushis. “Preciso é de vergonha na cara”, emenda, sugerindo certa insatisfação com a própria arquitetura.

Ele veste camiseta preta, calça de alfaiataria cinza, tênis da mesma cor e meias soquete. Antes de a conversa engrenar, conta que foi desalojado de seu endereço em São Paulo. Culpa do muro de uma vizinha, que ameaça desabar, e dela, que recorreu à Defesa Civil. Obrigado a ficar longe enquanto o problema não é resolvido, ele está alugando uma casa em Pinheiros. A que é dele, no Pacaembu, foi projetada pelo incensado arquiteto curitibano Vilanova Artigas (1915-1985). Construída em 1942, destaca-se pelos pilotis que a sustentam, pelos ambientes integrados, repletos de obras de arte, e por ter sido encapsulada pela vegetação ao redor. É o primeiro imóvel que Casas comprou, 30 anos atrás.

Até o começo da pandemia, ele tinha o hábito de passar metade de cada mês neste endereço, com eventuais escapadas para Iporanga, e a outra metade em Nova York, onde mantém uma filial de seu escritório desde 2000. Mantinha. Fechada desde março do ano passado, ela só deverá ser retomada quando o surto viral der trégua. Seu pouso em Nova York é um apartamento reformado e decorado por ele. A mesa de centro, cuja base remete a uma série de estalagmites, de autoria do escultor americano Paul Evans (1931-1987), dá uma pista da ambientação escolhida.

A aposta no mercado americano se deve à revolta de Casas com a retomada da arquitetura neoclássica, que vem ganhando força em São Paulo desde os anos 1990. “Cansei de ser procurado por pessoas que haviam comprado uma casa neoclássica e queriam que eu reformasse só a parte de dentro ou apenas decorasse, receosas de que mexer na fachada afetaria o valor de revenda”, lembra. “Não colocaria meu nome num projeto do tipo de jeito nenhum. Quantos deixei de fazer…” Pelo sim, pelo não, achou prudente tentar a sorte em Nova York, uma cidade na qual sonhava morar.

Seus projetos mudaram com a pandemia? Responde que sim. Em todos que criou desde que ela ronda as nossas casas, fez questão de arranjar espaço para o chamado “mudroom”, hall de entrada típico de países com invernos rigorosos, onde se deixam casacos e calçados ao se chegar da rua – “mud” é lama em inglês.

A aceitação tem sido boa – motivada pelo receio que todo mundo passou a ter de carregar o novo coronavírus para dentro de casa. “Mesmo se esse vírus não existisse, sapato é um negócio muito sujo”, argumenta. “Tiro o meu, quase involuntariamente, antes de entrar na casa de qualquer pessoa – e não é de hoje. É ótimo ter um espaço perto da porta da rua para guardar calçados e lavar a mão.”

Outro cômodo no qual tem apostado, com enorme aceitação, é o home-office. “É algo que veio para ficar”, acredita. “Hoje todo mundo quer ter um espaço fechado para trabalhar dentro de casa, tenha ela o tamanho que for.” As varandas, acredita, para as quais muita gente deu novos usos na quarentena, tendem a nascer com proporções maiores. Habituado a projetá-las com generosidade, faz a previsão pensando no mercado imobiliário como um todo. “Sacadas estreitas são difíceis de usar”, argumenta.

O CJ Shops, o mais novo shopping paulistano, saiu da sua prancheta. Da JHSF, é uma versão de bolso do shopping mais conhecido da incorporadora, o Cidade Jardim, cuja área interna foi projetada por Casas – a externa ele considera horrorosa. Inaugurado em dezembro, não foi projetado com a pandemia no horizonte, nem alterado em função dela. Mas é mais convidativo que outros shoppings no contexto atual. Situado no mesmo quarteirão do hotel Fasano, nos Jardins, é repleto de plantas e terraços a céu aberto, que minimizam os riscos de disseminação do coronavírus. Por outro lado, não pretende atrair multidões – com 6,5 mil m2 de área bruta locável, é seis vezes menor que o Cidade Jardim.

“Acabou ficando um pouco mais fechado do eu que gostaria”, admite. “Minha inspiração foram aquelas galerias nas quais você entra sem se dar conta de que não está mais na rua.” O público-alvo são os moradores dos Jardins, de onde várias marcas de luxo debandaram na última década. “Fatalmente vai atrair novos investimentos para aquela região, que estava em declínio”, profetiza.

Também responsável pela arquitetura interna do JK Iguatemi, no Itaim Bibi, ele lembra que o Shopping Pátio Higienópolis, inaugurado em 1999, desencadeou a mesma transformação que espera testemunhar nos Jardins. “O impacto dele foi muito positivo.”

Se houve um projeto que lhe deu as chaves do mercado de luxo, foi o do retrofit do prédio que abriga o hotel Emiliano, em São Paulo, inaugurado em 2001. Na melhor suíte, a da cobertura, Casas incluiu um cubo de vidro que faz as vezes de janela e descortina uma privilegiada vista de 180º. O restaurante, no térreo, ganhou um deslumbrante jardim vertical, que encobre uma das paredes por completo.

Casas também é o autor da filial carioca do hotel, de 2017, na qual parece ter caprichado bem mais. Na orla de Copacabana, sobressai-se da maioria dos prédios vizinhos – à exceção do Copacabana Palace, talvez – graças aos painéis vazados que revestem toda a fachada. São peças que encobrem as sacadas dos quartos e podem ser recolhidas e estendidas à vontade, o que deixa a fachada sempre diferente. Com ela, Casas alçou o empreendimento a ponto de referência na cidade – não há taxista, por exemplo, que desconheça a localização do “prédio com a fachada furadinha”. A piscina de borda infinita, na cobertura, também não poderia passar sem registro.

Formado em arquitetura e urbanismo pelo Mackenzie, ele conta que nunca cogitou exercer outro ofício. Os alicerces da escolha profissional remontam à infância, mais exatamente à época em que seu pai construiu uma casa para a família no bairro onde o arquiteto cresceu, a City Lapa, na zona oeste paulistana.

Em busca de referências para o projeto, o pai percorria os bairros vizinhos ao volante de um Esplanada, um antigo sedã da Chrysler, e o filho, com seus sete anos, ia junto. “Viam-se muitas construções pela cidade e não tantos muros como agora”, lembra Casas, que adquiriu o hábito de desenhar as fachadas das residências que mais lhe chamavam a atenção. Por volta dos 12 anos de idade, começou a elaborar plantas baixas de imóveis fictícios.

Antes de tentar a sorte como chefe de si próprio, teve apenas dois empregos. Um deles numa construtora de imóveis pré-fabricados; o segundo, no escritório do arquiteto e decorador Sig Bergamin. “Não era esse Sig que todo mundo conhece, ele fazia uns projetos modernos, tinha uns 27 anos”, lembra. “Não que tenha me ensinado algo, mas aprendi muito com ele, observando.”

Sua primeira construção, projetada quando já trabalhava por conta própria, o assombra até hoje. Trata-se de uma casa erguida no Condomínio Terras de São José, situado no município de Itu, no interior de São Paulo. Foi inspirada nas obras do arquiteto suíço Mario Botta, em geral robustas e revestidas de tijolos. “O primeiro cliente deveria ganhar um troféu. Você só faz coisa errada e ainda manda a conta”, brinca. “Quando você é jovem, elege um ídolo e o copia em tudo. O meu era o Botta. Que ainda considero um grande arquiteto. Só que agora acho os trabalhos dele horríveis.”

Muda de assunto dizendo o seguinte: “A verdade é que a arquitetura é uma profissão que demanda tempo de amadurecimento. Demora até você entender qual é o seu estilo, assim como todo mundo demora para descobrir a maneira que prefere se vestir”.

A carreira como designer de móveis começou na mesma época. “Para o tipo de casa que eu fazia também era preciso criar o mobiliário. Não tinha outro jeito”, argumenta. “Ou eu recorria às lojas de móveis clássicos ou às criações de modernistas como o Le Corbusier, que se viam na casa de todo publicitário.” Chegou a montar fábrica e loja para viabilizar a confecção dos próprios móveis. “Evidentemente só tive prejuízo.” A empreitada durou uns sete anos.

Hoje seus objetos e móveis são confeccionados em parceria com marcas como Etel e +55design. Uma de suas peças mais bem-sucedidas é o aparador de madeira cujas gavetas remetem a ondas. A escrivaninha Asa, também de madeira, permite ocultar o notebook e acessórios como canetas e papéis quando eles não estão sendo usados. É um dos móveis de que mais se orgulha – e um fiasco de vendas. “Tem coisas que simplesmente não vendem”, resigna-se, esclarecendo que a peça em questão continua à venda, sob encomenda.

Instado a apontar as mudanças no segmento em que atua desde que debutou na profissão, nos anos 1980, diz o seguinte: “Quando comecei a trabalhar, as casas serviam basicamente para serem mostradas. Hoje, claro, continuam sendo um símbolo de status. Servem para mostrar aonde você chegou na vida. Mas são bem mais utilizadas. As salas de estar, por exemplo, no passado eram usadas só quando chegavam visitas. Nunca só pelos moradores, no dia a dia. Isso acabou.”

Diz que cozinhas totalmente integradas à sala de estar passaram a ser requisitadas por 60% dos clientes, mesmo os com espaço de sobra. Outra mudança envolve as áreas de serviço, nas quais era preciso incluir, por uma antiquada tradição, quarto e banheiro de empregados. “A necessidade de replicar o esquema de ‘Casa-Grande & Senzala’ não existe mais. Os projetos agora visam o conforto e a convivência dos moradores. Preveem crianças fazendo bagunça, cachorro passeando pela sala.”

O Studio Arthur Casas pertence a ele e a três sócios, todos arquitetos – Gabriel Ranieri, Regiane Khristian e Nara Telles. Recentemente, um deles rechaçou uma proposta de trabalho vinda da Colômbia, que envolve construções populares. “Acho que não é para nós”, justificou. Ao que Casas retrucou: “Claro que é, vamos fazer, acho superlegal.”

Se o projeto sair do papel, será o primeiro, digamos, democrático do escritório. “Eu domino o mercado de luxo, entendo como ele funciona muito bem, mas também acho importante tentar entender como é possível fazer projetos populares dignos e com qualidade”, diz, revelando o interesse em aceitar novas encomendas do tipo. “O Brasil tem bons arquitetos que trabalham nessa área. Mas também gostaria de atuar nela, quem sabe fazer um projeto financiado pelo Minha Casa Minha Vida. Aqui é o ‘Minha Casa Meu Closet’.”

Emenda um relato de sua tentativa frustrada de colaborar com a revitalização do Pelourinho, o ainda degradado centro histórico de Salvador. “Em 2012, eu continuava trabalhando para o público AAA, para quem sempre trabalhei, e tudo ia bem”, diz. “Graças à minha alma atormentada e à minha inquietação, porém, resolvi mostrar que arquitetura pode servir para mais coisa.” Naquele ano, o escritório dele venceu um concurso do governo da Bahia para requalificar três largos do Pelourinho.

Casas propôs arborizá-los e dar a eles novos usos – um ganharia um anfiteatro, mirante e cinema a céu aberto – com a esperança de que atraíssem novos moradores para o bairro, pouco habitado. Mas nada saiu do papel. “Trocou o governo, e o novo não quis dar continuidade, esbarrou em questão política, essa praga desse país”, revolta-se, referindo-se à substituição do antigo governador, Jacques Wagner, do PT, pelo atual, Rui Costa, do mesmo partido. “Fui pago pelo dinheiro público, pagaram o projeto de engenharia, do calculista, o projeto saiu em todos os jornais. Só que Salvador não vai receber, foi tudo uma ilusão. Pode ser retomado? Pode, mas acho difícil.” Procurada, a secretaria de Cultura da Bahia não se manifestou.

Entre Jair Bolsonaro (sem partido) e Lula (PT), em quem votaria, caso a próxima eleição terminasse entre os dois? A pergunta lhe fora feita na véspera pelo filho mais novo, de oito anos, fruto de seu segundo e atual casamento, com a arquiteta Ligia Casas. A resposta: “É por isso que você precisa entrar na política e salvar esse país”. Instado a dizer se nas conversas com os clientes a política é um tópico frequente, afirma o seguinte: “O público com quem eu lido jamais votaria no PT. Pelo que ele fez com a Petrobras, pelo que todo mundo está careca de saber. Não votaram no PT e acabaram votando no Bolsonaro”.

Dá graças a Deus, em seguida, por ter se abstido do segundo turno da última eleição presidencial. Na época estava na Disneylândia, nos Estados Unidos, com a filha, hoje com 17 anos, fruto de seu primeiro casamento, com a arquiteta Maraí Valente. “Votei no Pateta”, ironiza. Encerra o tópico com a frase a seguir: “Eu detesto esse homem, o Bolsonaro, e se o Lula voltar ele não sai do governo nunca mais”.

Termina a entrevista falando sobre como a covid-19, que contraiu em janeiro, está afetando seu estado de espírito. Debelou a doença sem problemas, mas a possibilidade de se infectar novamente o deixou ressabiado. “Estava muito otimista no final do ano, achava que a pandemia caminhava para o fim”, lembra, repetindo uma sensação generalizada. “Agora estou mais ansioso, melancólico.” Diz em seguida que são dois sentimentos que só a burguesia pode se dar ao luxo de sentir, parafraseando um livro lido há pouco. “Então devo estar na burguesia”, admite.

Fonte: Por Daniel Salles — Para o Valor, de São Paulo

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