Para ex-BC, elevação da Selic pode contribuir para amenizar a alta das taxas de longo prazo e diminuir pressão no câmbio

Diante de um mundo em transição com aumento da inflação no radar e retomada da atividade em países desenvolvidos, o Banco Central precisará readequar os rumos da política monetária no Brasil. Para o estrategista-chefe de investimentos da gestora Wealth High Governance (WHG), Tony Volpon, houve uma piora significativa do balanço de riscos nos últimos tempos e é inegável uma alta de juros na próxima decisão do Copom, em 17 de março.

“Temos hoje uma postura monetária que era adequada para um mundo que foi embora”, disse o ex-diretor do BC, na “Live do Valor” na sexta, ao comentar o cenário anterior de inflação baixa. Ele destacou que, entre as mudanças no cenário, não há “perspectiva de encontro de taxa de câmbio e seus fundamentos”. Por isso, “tem de haver uma readequação da postura monetária”.

Volpon reconheceu que esse primeiro movimento exige um cuidado adicional já que uma alta muito forte pode ser negativa, assim como uma mudança branda demais. Uma mudança muito rápida, segundo ele, pode afetar a precificação da curva de juros, já que participantes do mercado podem ler a decisão como um sinal de preocupação do BC com os rumos da inflação. E isso poderia gerar um impacto negativo.

Por isso, ele entende que uma elevação de 0,50 ponto da Selic – que levaria a taxa básica de 2% a 2,5% – seria adequada neste momento, mas ressalta que essa visão depende da evolução do cenário, que enfrenta hoje uma pressão significativa vinda do exterior, além de incertezas no campo doméstico.

Olhando um pouco mais para frente, uma taxa final entre 4% e 5% seria adequada, para Volpon, pressupondo o andamento da vacinação e acomodação do mercado global pós-pico de inflação e “nada de populismo na política econômica”. “Temos de voltar para uma taxa positiva descontando a inflação.”

Volpon disse que gostaria que “o BC reconhecesse mais as grandes mudanças nos cenários externo e interno, como a situação fiscal”, para sinalizar que tem ciência dessas alterações e que haverá um ajuste necessário para reancorar as expectativas.

Ex-diretor da autoridade monetária, Volpon reconhece que é complicado tomar essas decisões em tempo real. “Tenho muita simpatia pelas pessoas que estão sentadas lá e é muito fácil jogar pedra de fora, mas tem de ter uma recalibragem de comunicação além de simplesmente pregar calma e que o pico inflacionário é temporário”, disse.

Segundo ele, a elevação da Selic pode contribuir para amenizar a alta das taxas de longo prazo e até a pressão no câmbio. Para Volpon, a política monetária, com juro real negativo, contribuiu para a desvalorização excessiva do câmbio brasileiro, principalmente em relação a outros emergentes.

“Isso depende do modelo, mas eu argumentaria que a taxa de câmbio hoje é a mais barata da história do real flutuante, inclusive 2002, quando havia um câmbio muito desvalorizado, mas os termos de troca eram muito fracos.” Mas o economista pondera que o caminho do dólar depende de uma série de outros fatores como fluxos para emergentes e ritmo de crescimento nos EUA.

Ao ser questionado se o nível de 4% a 5% da Selic ainda é estimulativo, ele disse que essa conclusão depende de outros fatores, como as condições financeiras – elemento que já estaria nos discursos do presidente do Fed, Jerome Powell.

Fonte: Valor Econômico – Por Lucas Hirata