As empresas do segmento têm direcionado investimentos em tecnologia para melhorar a produtividade e minimizar desperdícios diante da escassez de matérias-primas e da inflação

Há alguns meses parecia que tudo haveria de melhorar para a indústria da construção civil no Brasil. Investimentos em imóveis residenciais reagiam favoravelmente à medida que, pelos juros baixos, as aplicações em renda fixa deixaram de ser atrativas e o avanço do PIB passou a empurrar as vendas que andavam de lado com a pandemia.

Mas o setor, que continua na paradeira na área dos imóveis comerciais e de escritório, passou a enfrentar problemas novos. A escalada dos juros encareceu os financiamentos habitacionais e as pressões aumentaram com a escassez de matérias-primas que, por sua vez, puxou para cima os preços dos materiais de construção. É um segmento que acumula alta recorde de 34,5% nos últimos 12 meses encerrados em julho, como aponta o Índice Nacional de Custo da Construção – M (INCC-M), da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Em parte, essa escalada é consequência da desorganização temporária da cadeia de suprimentos ocorrida ao longo da pandemia. Mas reflete, também, o impacto da recuperação quase simultânea das maiores economias do mundo. O aumento dos custos dos insumos ou a falta de matérias-primas têm sido o principal gargalo enfrentado por mais da metade das empresas do setor no segundo trimestre deste ano, seguido por elevada carga tributária.

O descontrole dos preços atrapalha o desenvolvimento dos projetos, desde a elaboração de orçamentos até o término das obras: “Os empreendimentos levam de um ano a um ano e meio até o lançamento. As empresas não conseguem reagir rapidamente a esse aumento absurdo de preços”, queixa-se Carlos Borges, vice-presidente de Tecnologia do Secovi-SP.

Para driblar as incertezas do momento, as construtoras têm investido em tecnologias tanto na área gerencial, com o objetivo de melhorar a produtividade e reduzir os desperdícios; como na adoção de novos métodos de construção.

Um desses novos métodos é a chamada construção “off-site” – sistema em que as estruturas são pré-moldadas em fábrica e chegam ao canteiro de obras para montagem. Mais empregada nos países avançados e embora mais cara, começou a ser adotada por aqui na construção de galpões, supermercados e shopping centers, pela necessidade de encurtamento de prazos. A pandemia foi outro fator que intensificou a utilização desse método.

Ao longo dos últimos meses, hospitais foram construídos ou ampliados, em um período de 30 a 40 dias, por meio da utilização de peças modulares. Foram, por exemplo, os casos do Hospital do M’Boi Mirim, na zona sul de São Paulo, do Hospital Regional do Guará, em Brasília, e do Hospital da Retaguarda, em São José dos Campos. Em outros tipos de obra, como as residências, esse processo ainda encontra resistências  por causa da cultura do concreto armado convencional.

“A adoção da tecnologia no canteiro de obras acontece a passos mais lentos, comparando-a com o pré e o pós-obra, onde  há empresas que vendem apartamentos sem sequer ter contato físico com clientes. Mas, em meio aos aumentos sucessivos de preços, as empresas estão percebendo que investir em tecnologia trará ganhos mais expressivos no fim do processo”, observa Dionyzio Klavdianos, presidente da Comissão de Materiais, Tecnologia, Qualidade e Produtividade da Câmara Brasileira da Construção Civil (CBIC)

Como aponta Íria Doniak, presidente executiva da Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto (ABCIC), as estruturas pré-fabricadas ainda enfrentam forte carga tributária, especialmente do ICMS. Outro problema é a escassez de mão de obra qualificada exigida por esse tipo de montagem, além das formatações dos processos de licitações privilegiarem os  métodos construtivos convencionais.

“Os sistemas de financiamento no país são voltados a cronogramas de execução de obras de longo prazo. A ausência de projetos executivos ou básicos em condições de definição pelo sistema construtivo a ser adotado já na contratação das obras, limita a ampliação não somente do sistema em pré-fabricados de concreto, como da industrialização de uma forma mais ampla”, afirma Íria.

Apesar do momento delicado, as projeções de crescimento do setor foram reavaliadas para 4% em 2021, o mais alto desde 2013. Os investimentos em empresas que operam com inovação também seguem em alta.

Para Bruno Loreto, cofundador da Terracotta Ventures, fundo especializado em startups para construção civil, o cenário desafiador indica que a transformação digital, finalmente, vai avançar em todas as áreas do setor porque as empresas estão ampliando sua visão.

“Os empresários estão conseguindo entender que o seu negócio consiste em vender uma solução completa, originar uma demanda por essa solução, e não apenas levantar um prédio.”  

Fonte: Estadão